Muito se fala sobre a vida a dois, sobre encontrar o parceiro ideal. Menos se dá valor e menos se fala sobre a amizade. Acabei de passar uma temporada de 10 dias com quatro amigos e posso dizer que uma experiência dessas é daquelas que ficam marcadas na alma. Tem muito mais risadas, tem muito mais trocas e muito mais bagunça também, coisa que eu gosto demais — acho que me lembro dos tempos de colônia de férias, das excursões da escola.
O fato é que esse “barulhinho bom” causado por viagens em grupo me faz muito bem e me deixa muito feliz. Muito. O fato de ter vivido tantos dias tão especiais, ensolarados e cheios de trocas com eles me energiza para o próximo semestre de trabalho, de empenho, de desafios e de dedicação à minha família. Tudo isso é muito importante, mas se a gente não tiver com as energias carregadas, nada rola. Acredito que amigos nos ajudam nesse processo. Quando estou num grupo que eu gosto muito, me solto, fico muito bem humorada, criativa e até engraçada. Gosto demais desse estado e espero que esse exemplo, essa experiência se multiplique na minha vida a cada ano. E viva esse amor tão de verdade, tão autêntico e tão rico em sensações. E, agora, sim, voltamos a programação normal. Bom semestre para todos!
P.S.: Aqui vai um pequeno detalhe que merece uma grande comemoração: nossa Caixa Postal completa nesta edição três anos de existência — com certeza um motivo para ficar muito orgulhosa. Aqui vai um agradecimento muito especial para essa equipe que segue comigo desbravando caminhos com dedicação, irreverência e muita criatividade. Obrigada David, Bia, Dani e Maria Eugênia. Que delícia de caminhada.
Ilustração: Maria Eugenia
A CARA DAS FÉRIAS
As férias dão uma sensação curiosa de liberdade. De alegria. De final, um tempo para relaxar. Por alguns dias, parece possível deixar a rotina em casa e embarcar como a pessoa que sempre sonhamos ser. Mais organizada. Mais elegante. Mais disposta. Tipo aquela mulher que acorda cedo para correr, lê três livros numa semana, troca de roupa antes do jantar e está sempre pronta para um convite inesperado. Talvez seja por isso que fazer a mala tenha um tanto de planejamento e outro tanto de fantasia.
A gente não escolhe apenas o que vai vestir. Escolhe também quem gostaria de ser durante aqueles dias. O tênis de corrida vai para a mulher disciplinada que pretende malhar todas as manhãs. Os vários livros pertencem à leitora concentrada, que finalmente acredita que terá tempo. A blusa de seda e o sutiã especial são da mulher com uma agenda social animadíssima, cheia de jantares e ocasiões sofisticadas. O casaco mais pesado protege uma versão precavida de nós mesmas, preparada até para o frio que a previsão garante que não virá.
É bonito esse otimismo da mala. Cabe ali dentro uma vida um pouco mais interessante, mais ativa e mais bem arrumada do que aquela que a gente propriamente vive. Quatro biquínis, seis saídas de praia, sandálias para diferentes momentos, roupas para chuva, para frio, para restaurantes formais e para situações que ainda nem existem. Por alguns minutos, diante do armário aberto, tudo parece possível. A viagem ainda não começou e já estamos ensaiando uma personalidade nova.
Depois chegamos ao destino e a vida real, com sua conhecida falta de cerimônia, aparece. A mulher que faria exercícios cedo dorme um pouco mais. A leitora dedicada só termina poucas páginas. Os jantares sofisticados dão lugar a refeições improvisadas, e a rotina da praia acaba dominada pelo mesmo maiô, pelo mesmo short e, quando há uma criança de dois anos por perto, por um pequeno ditador que decide horários e programas sem consultar ninguém.
Lá pelo segundo dia, as roupas que representam nossa personalidade verdadeira começam a vencer. O vestido preto que funciona no jantar e no café da manhã. A rasteirinha que aguenta areia, rua e cansaço. A bolsa grande, onde cabem protetor, brinquedos e lanchinhos para qualquer emergência. Seja na Espanha, na Itália ou na Grécia, acabamos voltando às peças que nos deixam confortáveis, enquanto aquela personalidade ambiciosa permanece cuidadosamente dobrada no fundo da mala.
E talvez esteja justamente aí a graça. As férias abrem uma pequena brecha para imaginarmos quem poderíamos ser sem os horários, as cobranças e os hábitos de sempre. A gente se permite acreditar que vai acordar diferente, viver diferente, se vestir diferente. Carrega todas essas possibilidades na bagagem, mesmo sabendo que muitas não chegarão a sair das gavetas.
Com o tempo, aprendemos qual vestido será usado várias vezes e qual roupa do “vai que...” voltará intacta para casa. Ainda assim, continuamos levando.
A melhor versão de nós mesmas talvez passe boa parte das férias guardada dentro da mala, entre uma legging de corrida sem uso e uma blusa de seda esperando algum jantar imaginário. Mas ela embarca junto. E a vida, afinal, não é formada também de esperanças?
Me ajuda que eu te ajudo? / Fotos: reprodução Instagram
CHATICES, MAS EM BOA COMPANHIA
Tem uma parte da vida adulta que ninguém mostra nas fotos. É aquela em que a gente cancela uma assinatura que nem lembrava que pagava, marca a consulta adiada há meses, organiza documentos, paga contas, escolhe quais das 14 mil fotos do celular merecem continuar existindo e passa uma tarde ao telefone, ouvindo musiquinha, até algum ser humano resolver aparecer. Aos poucos, vai se formando uma vida paralela feita de senhas, formulários e pendências minúsculas, mas capazes de ocupar um espaço enorme na cabeça.
Li na The New Yorker sobre as chamadas “Admin Nights”, encontros criados para dar conta dessa administração pessoal. O nome foi inventado pelo jornalista Chris Colin para definir uma terceira categoria de trabalho, instalada entre a profissão e a casa. A gente passa horas tentando trocar a senha do banco e, no fim, sente que não trabalhou nem descansou. Apenas cuidou da engrenagem invisível que mantém uma vida funcionando.
A ideia das “Admin Nights” é reunir pessoas para fazer, juntas, aquilo que cada uma vem evitando sozinha. Pode acontecer na cozinha de uma amiga, com vinho e petiscos, enquanto algumas mães organizam festas infantis. Pode ser numa sala virtual do Zoom. Ou num bar, com estudantes e profissionais pagando contas, preenchendo formulários e fazendo listas ao som de sintetizadores. Cada um diante da própria chatice, mas com companhia e pano de fundo.
Existe até um nome para a presença que ajuda a gente a começar: “body doubling”. É quando outra pessoa fica por perto enquanto você realiza uma tarefa, funcionando como uma espécie de testemunha silenciosa do foco. Ela nem precisa ajudar. Basta estar ali. Parece pouco, mas muda o clima. A obrigação perde aquele peso de castigo particular e ganha um ar quase social, como uma repartição pública afetiva, com gente querida e alguma coisa gostosa para comer.
Segundo as pesquisas citadas na reportagem, quase três quartos das pessoas sentem que fazer listas acalma. Só que mais de 40% das tarefas anotadas nunca chegam a ser riscadas. A lista organiza o caos por alguns minutos, mas também acumula promessas que a gente fez para si mesmo e preferiu esquecer. A gente olha para ela, ela olha de volta, e fica por isso mesmo.
A cabeça, porém, não esquece. O chamado efeito Zeigarnik, que é a tendência do cérebro humano de se lembrar muito melhor de tarefas inacabadas, interrompidas ou pendentes, explica por que essas tarefas continuam rondando a memória de curto prazo. Uma parte do cérebro lembra a conta vencendo. Outra avisa que falta responder um e-mail. Uma terceira pergunta, de tempos em tempos, por que ainda não marcamos o médico. Até Leonardo da Vinci e Michelangelo faziam listas de afazeres. Confesso que fiquei um pouco aliviada com essa informação. Pelo menos estamos em companhias históricas.
Uma das organizadoras desses encontros criou uma expressão deliciosa para descrever o rosto de quem finalmente conclui alguma coisa: “o Botox da conclusão”. E faz sentido. Riscar uma pendência parece devolver alguns anos à fisionomia. Os ombros descem, a testa relaxa, a pessoa respira de outro jeito. Tudo porque conseguiu cancelar um plano de telefone ou enviar um formulário que estava esperando havia semanas.
Talvez o charme das “Admin Nights” esteja nessa autorização para misturar obrigação e prazer. A gente se acostumou a imaginar que produtividade exige isolamento, disciplina e uma mesa limpa. Mas algumas tarefas ficam menos penosas quando há conversa, companhia e uma taça de vinho por perto. A presença dos outros não elimina a burocracia. Só evita que ela tome conta da noite inteira.
Pode virar ainda uma boa desculpa para encontrar os amigos. Em vez de combinar um jantar e passar a noite culpado pelas coisas que ficaram por fazer, todo mundo se reúne, resolve alguma pendência e conversa ao mesmo tempo. A vida anda tão cheia de cobranças que até o lazer parece precisar apresentar justificativa. Pois bem, aí está uma excelente: “vamos nos ver porque preciso organizar minhas fotos”. Que loucura. E que alívio.
A gente gasta energia demais tentando administrar sozinho tarefas pequenas demais para virar assunto e grandes o bastante para nos deixar cansados. Quando a chateação é compartilhada, a conta continua lá. O formulário também. Mas há alguém do outro lado da mesa reclamando de outra senha esquecida, comendo um petisco e entendendo perfeitamente o drama.
A gente gosta de acreditar que beleza é só embalagem. Que o importante está por dentro. Que não julgamos ninguém pela aparência. É um discurso bonito, mas a vida real insiste em desmenti-lo.
Li na The New Yorker uma reflexão sobre o “lookism”, nome dado à discriminação baseada na aparência física. E fiquei pensando no tanto de poder que um rosto pode carregar antes mesmo de a pessoa abrir a boca. Segundo estudos do economista Daniel Hamermesh, professor emérito de economia na Royal Holloway University of London e na University of Texas, em Austin, citados pela revista, alguém considerado atraente pode ganhar cerca de 140 mil dólares a mais ao longo da vida. Também encontra parceiros com maior facilidade e pode receber um tratamento melhor até num tribunal. Pelo visto, a beleza abre, sim, portas e às vezes até as bem pesadas.
Do outro lado está um preconceito que quase nunca se apresenta pelo nome. Ninguém costuma dizer que não contratou, não convidou ou não se interessou por alguém porque achou aquela pessoa feia. A rejeição ganha as explicações mais elegantes: faltou presença, faltou química, não tinha o perfil. A aparência continua decidindo muita coisa, protegida por um silêncio bastante conveniente.
E agora a tecnologia entrou nessa conversa com todos os recursos disponíveis: remédios GLP-1 para emagrecer, cirurgias, filtros, retoques digitais. O rosto deixou de ser apenas rosto e virou um projeto em permanente construção. O escritor de ficção científica Ted Chiang chamou isso, num conto, de “beleza de nível farmacêutico”, uma boa definição para este momento em que até o acaso parece estar saindo de moda.
Nesse mesmo conto, existia a “calliagnosia”, um procedimento cerebral que bloqueava a capacidade de julgar a beleza dos rostos. A ideia é radical e tentadora. Imagine olhar para alguém sem que simetria, pele, peso, idade ou qualquer outro detalhe estético chegue primeiro. Seria libertador, mas também um pouco assustador, porque obrigaria a gente a perceber quanto do nosso olhar foi treinado para classificar.
Na vida real, a jurista norte-americana Deborah Rhode defendeu que a aparência fosse incluída nas leis de combate à discriminação. Algumas empresas já experimentam processos seletivos às cegas, tentando impedir que o rosto do candidato fale antes do currículo. Faz sentido. Ainda assim, nenhum sistema consegue apagar completamente aquilo que carregamos dentro de nós. O preconceito visual pode perder a fotografia e encontrar outra fresta por onde entrar.
Por isso, a mudança mais delicada começa muito antes da entrevista de emprego. Começa em casa, na forma como falamos dos corpos, das idades e dos rostos. Nas piadas que deixamos passar. Nos elogios que oferecemos sempre às mesmas características. E também na curiosidade que ensinamos às crianças a ter pelo que existe além da superfície.
Fingir que a beleza não existe seria ingênuo. Ela dá prazer, fascina, movimenta fortunas e organiza relações de poder. A questão é o que fazemos com ela. Um rosto bonito não diz nada sobre inteligência, caráter, talento ou valor, embora a gente continue agindo como se dissesse.
Com certeza, é muito bem-vinda essa pausa entre ver e concluir. Porque, num tempo tão treinado para classificar rostos em segundos, enxergar alguém sem encerrar a história apenas em função da aparência já exige uma atenção rara. E atenção, convenhamos, anda mesmo bem escassa.
Tem dia que amanhece torto. Uma pequena contrariedade puxa a outra e, quando a gente percebe, já falou atravessado com o barista, jogou a bolsa na mesa com força demais, quebrou um pote de vidro e respondeu mal justamente a quem não tinha nada a ver com a história. O mau humor gosta de companhia.
Li na revista Vox sobre esses dias em que tudo parece dar errado. O psicólogo Ryan Martin, autor do livro “Emotion Hacks”, explica que, quando estamos irritados, passamos a enxergar o mundo por uma lente negativa. Até o que seria apenas inconveniente ganha ares de tragédia. O trânsito deixa de ser apenas um causador de atraso e vira uma catástrofe pessoal.
A primeira providência parece simples, embora nem sempre seja fácil: admitir que estamos de mau humor. Dizer para si mesmo, sem drama: hoje não estou bem. Essa pequena honestidade ajuda a separar o que realmente deu errado daquilo que só nos encontrou sem paciência. Também vale fazer um inventário menos injusto do dia. O café da manhã estava gostoso? Você conseguiu sair de casa no horário? Nem tudo desabou. Apenas foi a lente que ficou escura.
Há ainda aquela sensação desagradável de ter perdido o controle. Só que muitos dias ruins são uma coleção de imprevistos sem qualquer ligação entre si, embora a nossa cabeça insista em montar uma narrativa de perseguição. Às vezes, remarcar uma reunião, dar uma volta, telefonar para um amigo, dormir melhor ou simplesmente parar por um minuto já devolve alguma proporção às coisas. O problema continua ali, mas deixa de ocupar a casa inteira.
O cuidado maior é não obrigar quem está por perto a administrar o nosso temperamento. Explodir, dar patadas ou anunciar que estamos prestes a surtar apenas espalha o problema. Funciona melhor dizer: “Hoje o dia está difícil, será que daria para ter um pouco de paciência comigo?”. Achei essa frase de uma delicadeza enorme. Ela reconhece o próprio limite sem mandar a conta para o outro.
A calma pode ser apenas o instante em que a gente percebe o estrago antes de fazê-lo. É o segundo entre a irritação e a resposta, quando ainda dá tempo de baixar o tom, respirar e evitar que um dia ruim se torne um dia péssimo para todo mundo ao redor. E isso, convenhamos, já ajuda bastante.
Ilustração: Maria Eugenia
A DIFÍCIL ARTE DA DESPEDIDA
Esse é um assunto que, vira e mexe, aparece aqui: a questão da finitude, algo que a gente insiste em evitar, mas que é extremamente necessário. Então, aqui vai uma história bem curiosa: um senhor resolveu deixar a própria morte organizada com um capricho quase comovente. Já havia comprado o terreno no cemitério, escolhido o caixão, inclusive o forro de cetim, preparado a lista de músicas e o programa da cerimônia. Tinha até escrito, na primeira pessoa, um rascunho da elegia. Mas, quando sua saúde piorou, ninguém sabia como ele gostaria de viver os últimos dias.
Li essa história num artigo de opinião do The Washington Post, escrito por uma médica de cuidados paliativos, e fiquei pensando no quanto somos capazes de cuidar de cada detalhe da morte enquanto evitamos conversar sobre o processo de morrer. Escolher a música do velório parece administrável. Dizer até onde queremos que a medicina vá exige uma coragem bem diferente.
Segundo o texto, pelo menos 40% dos idosos beneficiários do Medicare, nos Estados Unidos, não possuem diretrizes médicas antecipadas. Mesmo quem preenche um formulário pode deixar de fora justamente o que mais importa. Uma ordem para não reanimar cabe numa linha, mas uma vida inteira, com seus afetos, medos, compromissos e desejos, precisa de muito mais espaço.
Alguém pode aceitar seis semanas de dor para assistir ao casamento da neta. Outra pessoa pode preferir voltar para casa, abrir a janela, ficar ao lado da filha e ouvir os ruídos comuns da própria rotina. Essas escolhas dizem mais do que qualquer quadradinho assinalado num documento. Falam daquilo que ainda dá sentido ao tempo quando o tempo começa a faltar.
Quando essa conversa é adiada, a família precisa decidir em meio ao susto. O quarto do hospital se enche de máquinas, opiniões e culpa. Ninguém quer parecer que desistiu e, tentando amar, os parentes podem autorizar procedimentos agressivos que a própria pessoa jamais escolheria. Um estudo publicado numa revista científica e citado pela médica mostrou que preencher a papelada, por si só, pouco resolve. A diferença está na profundidade e no tom da conversa.
É curioso como planejamos heranças, cerimônias, flores e músicas, mas temos uma dificuldade imensa de contar a quem amamos quais condições ainda fariam a vida valer a pena. Em quem confiamos para falar por nós? Quanto sofrimento aceitaríamos por mais algum tempo? E quando esse tempo começaria a custar caro demais?
Preparar uma despedida antes que ela se torne urgente também pode ser uma forma delicada de cuidar de quem fica. Poupa a família da dúvida, reduz o peso das decisões e deixa menos espaço para a culpa.
Organizar o funeral tem sua elegância. Conversar sobre os últimos dias exige intimidade, coragem e alguma generosidade. Afinal, quando já não pudermos falar, será importante que alguém ainda saiba reconhecer a nossa voz.
Tudo que é bom um dia acaba, mas isso não quer dizer que a gente vá ficar triste. Sim, o verão europeu continua, mas o mês de julho chega ao fim e é hora de voltar para os afazeres do dia a dia. Pensando na viagem de volta e inspirada em retomar a rotina, fiz minhas escolhas da semana no Iguatemi. Sim, porque nos voos longos, todo cuidado é pouco…
Na montagem acima, reprodução da imagem de Helmut Newton, 1964
1 - A elegância no desembarque está garantida com essa jaqueta de camurça da Loewe
2 - Nada melhor do que sapatos confortáveis para as longas caminhadas nos aeroportos: esse tênis da Chanel traz conforto e elegância
3 - Gosto de levar a minha própria manta para os voos: me traz um conforto extra e, para isso, esse lenço de cashmere e seda da Hermès é ideal
4 - Sabe aquela pele desidratada que a gente fica no avião? Pois isso não acontece com esse kit imbatível de hidratantes da Sisley — como eu amo!
5 - Para carregar tudo aquilo que a gente gosta no avião, a bolsa Pinacoteca da Bottega Veneta é grande o suficiente e puro charme
Nesta semana, recebo Alex Atala para uma conversa sobre reinvenção, brasilidade e a coragem de apostar no que ninguém mais via valor.
Falamos sobre os primeiros anos como o "contraponto" da gastronomia, sobre os biomas do Brasil, ambição, ego, paternidade e o peso de carregar sozinho uma bandeira por tantos anos.
Ao longo da conversa, Alex mostra que a maturidade não é sinônimo de acomodação. Pelo contrário: pode ser o momento de mergulhar ainda mais fundo naquilo que se ama, com menos medo e mais verdade.
Ana Raia construiu sua trajetória ajudando pessoas a atravessar momentos de mudança, mas esse caminho começou muito antes de a mentoria se tornar sua profissão. Nos anos 1990, uma temporada na Califórnia e sucessivas viagens ao Oriente despertaram seu interesse pelo autoconhecimento, pela yoga e pelo estudo da mente. Ao longo de mais de 25 anos, ela reuniu conhecimentos diversos para desenvolver uma metodologia própria, voltada especialmente às mulheres que buscam viver com mais consciência e coerência com quem são. Agora, ela inaugura um novo capítulo dessa trajetória com o WE ARE, um clube privado de desenvolvimento humano feminino que propõe uma jornada coletiva.
1. O que motivou a criação da sua mentoria: uma necessidade que você observava nas mulheres ou uma experiência pessoal que viveu?
A minha mentoria nasceu da combinação entre uma busca pessoal e a necessidade que eu observava nas pessoas que chegavam até mim. Muito antes de trabalhar com desenvolvimento humano, eu já estava profundamente envolvida com esse universo. Nos anos 1990, fui fazer faculdade de Publicidade na Califórnia, e foi lá que começou minha jornada de autoconhecimento. Durante esse período, viajei diversas vezes pelo Oriente, onde tive meu primeiro contato com as práticas de yoga. Anos depois, atuando como designer gráfica e professora de yoga, percebi que muitas pessoas me procuravam em momentos de transição, buscando mais clareza, mudanças de comportamento, equilíbrio e propósito. Eu ajudava com os recursos que tinha, mas não eram suficientes. Até que decidi me aprofundar para oferecer um processo estruturado. Então, passei a integrar na minha metodologia neurociência, comportamento humano, autorregulação, mindfulness e outras práticas baseadas em evidências.
E tenho uma novidade, que conto em primeira mão aqui: é o WE ARE. Na segunda quinzena de agosto, darei início a esse novo projeto. O WE ARE é um clube privado de desenvolvimento humano para mulheres comprometidas com a própria evolução. Um espaço cuidadosamente curado para desacelerar, ampliar horizontes, construir vínculos significativos e fortalecer os recursos internos que sustentam uma vida bem vivida.
2. Como reaprender a desejar quando muitas mulheres foram ensinadas a identificar rapidamente as necessidades dos outros, mas têm dificuldade de reconhecer as próprias?
Essa é uma das perguntas mais importantes do nosso tempo. Muitas mulheres aprenderam, desde muito cedo, a perceber e a atender às necessidades de todos ao redor e, aos poucos, foram se distanciando de si mesmas. Existe uma frase dos Upanishads — textos sagrados da Índia — que me acompanha há muitos anos: "O que for a profundeza do teu ser, assim será teu desejo. O que for o teu desejo, assim será tua vontade. O que for a tua vontade, assim serão teus atos. O que forem teus atos, assim será teu destino." Essa passagem nos lembra que o desejo não nasce do lado de fora. Ele é um reflexo da forma como nos enxergamos.
Quando uma mulher acredita, ainda que inconscientemente, que não é suficientemente inteligente, capaz, bonita ou digna de amor, ela passa a viver tentando compensar essa sensação de falta. Faz mais, entrega mais, agrada mais, coloca sempre o outro em primeiro lugar, na esperança de provar o próprio valor e merecer amor. E, quem acredita que precisa se tornar "melhor" para merecer amor dificilmente consegue priorizar os próprios desejos. Por isso, reaprender a desejar não começa na pergunta "o que eu quero?", mas em "como eu me vejo?" e "quanto eu acredito que valho?". É preciso revisar crenças profundas, reconhecer as próprias exigências, acolher as imperfeições e desenvolver uma relação mais respeitosa e amorosa consigo mesma. Quando uma mulher passa a se enxergar com dignidade, ela deixa de tratar o autocuidado como egoísmo e passa a entendê-lo como uma responsabilidade consigo mesma. E, naturalmente, suas escolhas começam a refletir esse novo olhar.
3. Você observa uma mudança na definição de sucesso entre as mulheres — afinal, o que elas estão deixando de considerar uma vida bem-sucedida?
Sim. E acredito que essa seja uma das transformações culturais mais importantes que estamos vivendo. Durante muito tempo, a definição de sucesso foi construída de fora para dentro: estabilidade financeira, status, casamento, reconhecimento profissional e acúmulo de patrimônio… Hoje, especialmente entre as mulheres, vejo uma mudança importante. O sucesso deixa de ser apenas uma conquista externa e passa a ser uma experiência interna. A métrica deixou de ser universal e passou a ser individual, muito mais relacionada a viver uma vida com significado e coerente com os próprios valores. Isso não significa que dinheiro, carreira ou reconhecimento tenham perdido importância. Eles continuam sendo desejáveis. A diferença é que deixaram de ser suficientes para definir uma vida bem-sucedida.
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