Reaprendendo a namorar, reavaliando uma atitude e recuando para avançar: em frente!

Não é de hoje que eu tenho comentado por aqui o quanto os grupos de mulheres são potentes, sejam aqueles de executivas e empreendedoras em torno de Luiza Helena Trajano, seja apenas um anônimo, com interessadas em um tema incomum. Pode ser também das amigas do colégio, de qualquer espécie. Mas o que eu quero dizer é que grupos de mulheres são muito, muito potentes. Eu, pessoalmente, tenho sido surpreendida a cada vez que participo de um — que seja ligado às artes, ao conhecimento e a coisas do gênero. Acabo de chegar de dois dias no Rio de Janeiro, cercada de mulheres potentes, das profissões mais variadas, em grande parte, donas de seus próprios narizes. Aprendi muito com elas, me diverti muito, troquei experiências, risadas e até danças com um DJ num rooftop no aeroporto Santos Dumont, ao pôr do sol na baía da Guanabara, de frente para o Pão de Açúcar. Agora, me diga uma coisa: se fosse um grupo de homens e mulheres ou apenas homens, acredito que o cenário seria bem diferente e bem menos animado… estou errada? Confesso que há muito tempo não passava dois dias com tamanha intensidade de trocas e interesses dos mais diversos. Voltei para São Paulo cheia de energia, revigorada, com alegria no coração e bem mais sábia depois dessa experiência. Ah, e ainda deu tempo de ver o Brasil vencer de três a zero. Dá pra querer mais do que isso?


DE OLHOS ABERTOS

Ser uma mulher hétero, hoje, tentando acreditar no romance, virou quase um exercício de ginástica emocional. Você quer desejar. Quer se entregar. Mas, ao mesmo tempo, olha em volta e pensa: será que eu estou entrando numa história de amor ou assinando um segundo turno de trabalho?

Li um artigo na New York Magazine sobre esse dilema e fiquei com isso na cabeça. De um lado, existe o tal heteropessimismo, esse pessimismo diante da vida afetiva de mulheres com homens. Uma espécie de desalento. Tem gente até com vergonha de ainda querer. Do outro, falam em hetero-otimismo. A ideia de que nunca tivemos tanta liberdade para escolher quem amar, como amar, se amar, quando amar. Bonito. Verdadeiro em parte, mas também um pouco limpo demais para uma vida que vem cheia de louça na pia, salário desigual e criança pendurada na perna.

Porque o romance não acontece no vácuo — ele acontece dentro de uma casa. De uma rotina. De uma cultura. De um mundo que ainda entrega para as mulheres uma parte muito maior do trabalho, muitas vezes invisível. Os homens podem até estar ajudando mais. Mas, segundo os dados citados no artigo, as mulheres ainda gastam quase o dobro do tempo nas tarefas diárias. E aí mora uma ironia muito fina: quando ele cozinha, muitas vezes vira lazer, charme. Quando ela cozinha, é logística. É fome. É cuidado.

E não para aí: tem o cuidado com os mais velhos, que também costuma cair no colo das mulheres. Tem o dinheiro que deixa de entrar. Tem o tempo que desaparece. Tem o corpo político da mulher sendo disputado por gente que adora falar de família, mas entende pouco de liberdade. Tem redes sociais cheias de figuras machistas ensinando homens a serem pequenos. Tem medo, tem desigualdade. Tem violência. Fica difícil vender otimismo afetivo como se fosse só uma questão de trocar de aplicativo ou “abrir o coração”.

Talvez por isso eu tenha gostado tanto da ideia da filósofa Mara van der Lugt: o pessimismo esperançoso. Que expressão boa. Porque não é cinismo. Não é desistência. É olhar para a realidade sem maquiagem e, ainda assim, não perder a vontade de transformá-la. É entender que o problema não está só no nosso desejo: está no entorno, que torna esse desejo tão caro.

Sim, amar continua sendo uma possibilidade muito bonita. Mas talvez o novo romantismo não seja mais fechar os olhos e se jogar. Talvez seja abrir bem os olhos antes. Ver quem lava a louça. Quem escuta. Quem cuida. Quem divide. Quem não transforma afeto em armadilha. O ideal é encontrar, no meio de tanto ruído, uma forma adulta e livre de continuar desejando.


UM OUTRO REGISTRO

Curioso como a vida vai mudando a nossa ideia de luxo. Quando a gente é criança, basta um cachorro na rua, uma cor viva, uma coisa qualquer brilhando no caminho, e pronto: o mundo inteiro fica interessante. Depois crescemos. E crescemos achando que crescer é aprender a desejar coisas maiores: um carro melhor. Celular novo. Viagem com jeito de cartão-postal. A bolsa da moda. Tudo aquilo que faz barulho, aparece bem na foto e, de preferência, provoca algum tipo de inveja — bem-educada, claro...

Li um texto muito bonito sobre esse assunto: como o envelhecimento vai afinando o olhar e nos ensinando que os prazeres simples talvez sejam o maior luxo que existe. Muito tem se falado sobre esse tema e eu pessoalmente gosto muito dessa ideia. Porque ela parece óbvia, mas não é. A gente demora para entender. Demora mesmo.

Vivemos numa época em que a comparação virou uma espécie de vício de bolso. Antes, talvez a gente se comparasse com o vizinho, com a amiga, com a prima que parecia ser bem resolvida. Hoje, a régua está no feed. E o feed não tem fim. Por exemplo, um fim de semana gostoso no interior, com calor, conversa e almoço demorado, pode parecer pequeno demais quando aparece na tela alguém em Paris, em modo espontâneo, como se tivesse tropeçado numa passagem aérea e numa luz perfeita. A vida da gente, que há cinco minutos estava boa, fica meio sem graça. Que loucura, né?

Só que o tempo, quando vem, traz umas correções importantes. Depois de algumas perdas, alguns tropeços, alguns silêncios, a lente muda. O que antes parecia pouco começa a ganhar peso: um dia bonito, quente. Um encontro inesperado com alguém querido. A presença de quem a gente ama. A leitura quieta de um livro. O luxo sai da vitrine e fica menos performático. E mais verdadeiro.

A revista lembra uma coisa essencial: maior não é, necessariamente, melhor. Parece frase de almanaque, mas é uma pequena revolução. A leitura, por exemplo: um bom livro não dá aquela recompensa imediata, meio histérica, que a tela entrega. Ele pede outra coisa da gente. Pede tempo. Atenção. Um pouco de entrega. Mas devolve muito: devolve escapismo, companhia, compreensão. Às vezes, a gente entra numa página cansado da própria vida e sai dela com a sensação de que alguém, em algum lugar, soube nomear exatamente aquilo que estava atravessado dentro da gente. É um luxo raro. E não custa muito.

Quando ficamos muito colados na comparação, no desejo do outro, na pressa de provar alguma coisa, perdemos a composição inteira. Vemos só o detalhe errado. A falta. O que não compramos, o lugar onde não fomos. A aprovação que não veio. Aí um dia a gente recua um pouco e percebe que havia cor ali. Havia vida. Havia mundo.

Talvez estejamos todos muito cansados de tentar comprar uma versão de nós mesmos que convença os outros. E talvez o descanso comece justamente quando paramos de disputar. Quando aceitamos que há uma elegância enorme em gostar do que é quieto. Em ler, em ficar. Em reparar. Em ter por perto quem realmente importa. Em perceber que um momento bom não precisa ser validado por ninguém para ter existido.

CONFIO, LOGO EXISTO

A pessoa cruza os braços, levanta uma sobrancelha, prevê o desastre e pronto: parece imediatamente mais inteligente. Mais preparada. Mais adulta. A gente comprou essa ideia de que esperar o pior é sinal de sofisticação. Como se acreditar no bom fosse uma ingenuidade, quase uma falha de caráter. Pois li na The Economist uma reflexão que vira essa mesa com bastante graça. E fiquei pensando nisso...

Porque o otimismo é menos uma frase de autoajuda e mais uma força de movimento. É ele que faz alguém abrir uma empresa, começar um projeto, insistir numa relação, levantar depois de um tombo. Fomos treinados a procurar o defeito, o risco, o ponto fraco — porque talvez apontar onde tudo pode dar errado soa mais esperto do que apostar que algo pode dar certo. Só que a vida, felizmente, não é feita apenas de relatórios de risco. Segundo o cardiologista norte-americano Alan Rozanski, pessoas otimistas têm menos chance de sofrer problemas cardiovasculares e atravessam as quedas com outra musculatura interna. Elas não veem uma derrota como sentença. Veem como episódio. Um tropeço, não uma identidade.

Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia e nada dado a romantismos fáceis, vai além. Para ele, esse otimismo meio delirante é o motor do capitalismo. E faz sentido. Quem, em estado absolutamente lúcido, abriria um restaurante, lançaria uma marca, escreveria um livro, apostaria anos de vida numa ideia incerta? Existe sempre uma dose de cegueira fértil em quem faz. Uma recusa em obedecer apenas às estatísticas. Sem isso, talvez o mundo ficasse impecavelmente prudente. Parado. E chato, bem chato.

Mas aí entra a parte boa da conversa: otimismo não pode virar anestesia. O excesso de confiança cobra preço. Pesquisadores da Universidade Duke descobriram que pessoas otimistas demais podem assumir riscos concretos, como fumar mais, além de concentrarem riqueza em bens difíceis de vender. Nas empresas, o mesmo impulso aparece em projetos que atrasam, estouram orçamento e seguem vivos por pura fé.

Por isso gostei tanto da ideia do “pre-mortem”: antes de começar, a equipe imagina que tudo deu errado. O projeto fracassou. O dinheiro acabou. O prazo explodiu. E, a partir daí, tenta descobrir por quê. É quase uma sessão espírita corporativa, só que útil. Convoca-se o fantasma do desastre para evitar que ele apareça de verdade. Um pessimismo instrumental, colocado a serviço da ação, não da paralisia.

O pessimismo, quando vira pose, é confortável demais. Ele nos protege do vexame de tentar. Já o otimismo exige um tipo mais raro de coragem: a de se expor ao erro, ao ridículo, à possibilidade de não dar certo. A gente passa tempo demais tentando corrigir fraquezas, com medo de perder o que já tem, e esquece que nossos acertos também ensinam. Talvez até ensinem mais.

Num mundo que muitas vezes trata a esperança como coisa boba, acreditar no lado luminoso virou quase uma ousadia. Não aquela confiança cega, meio irresponsável. Mas uma confiança acordada. Com olho aberto, bom senso e alguma intuição. O otimismo bom não nega o risco. Só não deixa que ele sente no banco do motorista.

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QUERO MEU ÓCIO DE VOLTA

Tem uma coisa engraçada nessa vida moderna. A gente trabalha para ter tempo livre. Aí, quando o tempo livre aparece, ele vem cheio de abas abertas, reservas pendentes, listas salvas, restaurantes para escolher, voos para encaixar, presentes para mandar, filhos para levar, malas para fechar. O lazer virou uma pequena empresa — mas, infelizmente, sem departamento administrativo.

Pois bem: de acordo com uma reportagem do site Business Insider, existe quem resolveu esse problema de forma radical. Radical e caríssima. Aqui a explicação: um casal criou uma empresa de gestão de estilo de vida, que cobra 150 mil dólares por ano para organizar o tempo livre de seus clientes. Não estamos falando de uma agência de viagem: é outra coisa. Mais íntima. Mais absurda também.

O serviço atende apenas de 10 a 12 famílias. Pouquíssimas. A promessa é que cada uma delas se sinta única. Com acesso direto aos fundadores, 24 horas por dia. Em vez de um CEO perder sete horas escolhendo onde jantar em Paris, alguém resolve isso por ele. E resolve bem.

A lista de tarefas é quase um retrato do privilégio contemporâneo: tem viagem para torneio de hóquei das crianças. Tem ida ao Ártico. Tem a administração de milhas aéreas. Tem presente hiperpersonalizado. Tem mudança de rota no meio da madrugada porque um voo atrasou em Nova York e a pessoa precisava alcançar outro jatinho privado na Ásia. Tudo com fluidez, sem atrito. Sem aquela parte chata da vida que insiste em existir.

E, nesse mercado, o poder já não está exatamente no objeto. Nem na viagem. Nem no iate. Está na ausência de ruído. Na vida que acontece como se alguém tivesse passado um ferro invisível por cima de todas as dobras. Nada emperra. Nada espera. Nada exige pesquisa, paciência, improviso. A pessoa só aparece na hora certa.

Há algo fascinante e um pouco triste nisso. Porque todos nós, cada um no seu tamanho de bolso, estamos tentando comprar tempo. Um aplicativo para entregar comida. Um serviço para limpar a casa... Um atalho qualquer para sobrar vida no fim do dia. Só que, nesse patamar, o tempo livre deixa de ser descanso e vira produto de altíssima precisão. O ócio ganha concierge. O lazer ganha advogado. A espontaneidade ganha equipe.

Parece um retrato mais que perfeito da extrema riqueza. Não esperar. Não escolher demais. Não se desgastar com a logística da própria felicidade. Tudo isso parece maravilhoso. E parece assustador. Porque existe também beleza no tropeço, no restaurante errado, no atraso, no plano que muda, na vida entrando sem pedir licença — é assim que surgem as melhores histórias.

Quando até o lazer precisa ser administrado por profissionais, o que sobra de verdadeiramente nosso no tempo livre? Talvez riqueza de verdade não seja comprar de volta as horas. Talvez seja conseguir habitá-las. Com algum silêncio. E uma certa bagunça.


UM MINUTO E MEIO

Tem horas em que a gente se acha uma pessoa bastante evoluída. Sensível. Atenta. Quase pronta para dar uma palestra sobre inteligência emocional. Aí basta uma reunião atravessada, uma mensagem mal escrita, um abraço pedido na hora errada, e pronto: sai de cena a criatura iluminada e entra alguém bem menos elegante. A voz sobe. O olhar fecha. A paciência desaparece sem deixar endereço.

Li sobre uma ideia da neurocientista de Harvard Jill Bolte Taylor: a chamada regra dos 90 segundos. A lógica é a seguinte: quando uma emoção forte aparece, como raiva, medo ou frustração, o corpo dispara uma reação química. O coração acelera, os músculos tensionam, a cabeça ferve. Mas essa descarga, segundo ela, dura cerca de um minuto e meio. Depois disso, se a emoção continua crescendo, é porque a gente está alimentando a cena com novos pensamentos, lembranças e argumentos internos.

O mais curioso é que essa tempestade, tão convincente quando chega, não tem toda essa duração que a nossa cabeça inventa. A onda sobe, quebra e vai embora. O problema é que nós, muito dedicados ao drama, costumamos entregar combustível. Repassamos a frase, imaginamos a resposta perfeita, montamos o tribunal inteiro dentro da cabeça. E aí aqueles 90 segundos viram uma tarde inteira. Às vezes, uma semana. Às vezes, uma relação arranhada.

Acho que a inteligência emocional não é essa fantasia de nunca sentir nada feio — que ideia cansativa essa. Talvez seja justamente o contrário: reconhecer a raiva, a frustração, o medo, e não transformar tudo isso em comportamento automático. Ficar quieto um pouco. Respirar. Deixar a biologia fazer seu serviço — há algo de chique nisso, no melhor sentido da palavra.

Porque, no fim, a gente não precisa ser perfeito. Precisa apenas não se confundir tanto com a primeira descarga elétrica do momento. A pausa, essa coisinha mínima, pode salvar uma conversa, um dia, um amor, uma equipe. Num mundo que trata toda reação rápida como prova de personalidade, esperar 90 segundos parece um gesto radical de bom senso. E bom senso, convenhamos, anda bem raro.

Desejos de consumo

Não sou exatamente ligada a festas caipiras, mas não dá para ficar de fora desse astral todo: é uma coisa bem brasileira, muito gostosa e eu valorizo demais nossas tradições, nosso folclore. Pensando nesse clima junino, fiz algumas escolhas esta semana no Iguatemi, em homenagem a esse tema. Gostei demais!

Na montagem acima, imagem de Heitor dos Prazeres, "Bandeirinhas com mastros e fitas", 1968

1 - Parece até que o Japão se rendeu a nossa tradição nesse vestido da Comme des Garçons!

2 - Ah, essa bota de couro de bezerro da Bottega Veneta serve para esta temporada e para todas
as outras do ano:
puro charme

3 - Não se pode dizer que esse chapéu da Gucci seja para dançar quadrilha, mas vale a homenagem!

4 - E que tal enfeitar o pulso com várias dessas pulseiras Wish, de couro e medalinhas coloridas, de Antonio Bernardo? Tipo de joias perfeitas para a ocasião!

5 - Com esse batom vermelho da Chanel, número 56,
é meio caminho andado: pura sedução


Nesta semana, recebo a escritora e autora de teatro e TV Maria Adelaide Amaral para uma conversa sobre amizade, amor, memória e os afetos de uma vida inteira.

Falamos sobre os amigos que moldaram sua trajetória, as histórias que inspiraram sua obra e a importância de preservar a capacidade de se emocionar, independentemente da idade.

Uma conversa delicada, divertida e profundamente humana.

A conversa completa está no meu canal do YouTube.
https://www.youtube.com/2qMsxC5PU2c

3 perguntas para

Depois de 35 anos trabalhando com moda, Marcia Basile encontrou no mel uma nova vocação. Tudo começou em sua fazenda, em Atibaia, quando uma colmeia enviada pelo sogro despertou nela uma curiosidade que logo se transformaria em pesquisa, encantamento e negócio. Dessa descoberta nasceu a Mbee, marca que há 12 anos lidera um movimento para mostrar que mel não é apenas algo doce ou medicinal. Para Marcia, cada mel é uma fotografia do território: carrega clima, altitude, bioma, florada, abelha e produtor. E confesso aqui: desde que eu fiz uma degustação dos produtos num jantar no Evvai, nunca mais deixei de incluir um deles em meu café da manhã de todos os dias. Um bálsamo para a alma…


1. O que motivou você a trabalhar com mel?

Eu trabalhei 35 anos com moda. Em 2011, decidi vender minha fazenda, que ficava em Atibaia. Comentei isso com meu sogro e ele me perguntou se eu sabia qual era a vocação da minha terra. Aquilo ficou na minha cabeça. Na segunda-feira, ele mandou um funcionário dele me entregar uma colmeia. Eu não sabia o que fazer com aquilo e meu sogro me sugeriu apenas deixar lá e não fazer nada. Meses se passaram e, numa tarde de outono bem bonita, eu estava andando a cavalo com meu marido, Eugênio, na região, durante o pôr do sol, e passei pela colmeia. Tinha um facho de luz nela e as abelhas voando em nosso entorno. Eu vi aqui e falei: “A vocação da minha terra é apicultura”. Aquilo me despertou um interesse muito grande e eu comecei alucinadamente a estudar sobre abelhas, a me encantar demais pelo assunto. E eu sempre fui a louca do mel. Em todas as viagens, sempre fiz questão de provar o mel local. E, em cada lugar que eu vou, eu sinto um sabor diferente. E aí, com essa história, a gente produziu e fez a primeira safra, ali na fazenda, de mel.

2. A Mbee parece nascer de uma mudança de olhar: em que momento você percebeu que o mel podia contar uma história muito maior do que ele próprio?

Mel ser definido por florada é muito raso para o Brasil, que é o país mais biodiverso do mundo. O mel traduz o território, o clima, a altitude. É uma fotografia que a abelha faz naquele local, naquele momento, que nunca mais vai se repetir. Eu acho que essa mudança de olhar começa quando a gente entende que existem dois mundos muito diferentes. O primeiro é o da Apis mellifera, aquela abelha mais conhecida, com ferrão, que veio para o Brasil com os jesuítas e depois se cruzou com espécies africanas, tornando-se uma abelha extremamente resistente. Hoje, ela é essencial para a agricultura, porque poliniza boa parte do que comemos. Mas existe um segundo mundo, ainda pouco conhecido, que é o das abelhas nativas sem ferrão. Das cerca de 400 espécies sem ferrão existentes no mundo, aproximadamente 300 estão no Brasil. É um patrimônio imenso, mas que o próprio brasileiro ainda conhece pouco. Foram essas abelhas nativas que ajudaram a construir e regenerar a biodiversidade brasileira muito antes da chegada das abelhas europeias.

Com o mel acontece a mesma coisa: são universos completamente distintos. O mel da Apis é mais doce, estável e familiar ao paladar. Já os meles de abelhas nativas são naturalmente fermentados dentro da própria colmeia, mais líquidos, mais ácidos, translúcidos e com camadas de sabor muito complexas. Em 12 anos nesse mercado, já provei até mel salgado de abelha nativa. Então, quando a gente entende tudo isso, percebe que o mel não é apenas um produto doce. Ele carrega espécie, território, biodiversidade, processo natural e uma história muito maior do que o próprio pote.


3. Você precisou convencer as pessoas de que mel não é tudo igual? Como se educa o paladar de um país acostumado a enxergar o mel como um produto único, genérico, sempre doce?

Culturalmente, o mel no Brasil sempre foi visto como remédio e nunca foi tão usado no dia a dia como ingrediente, como acontece em outros países. Por isso, desde o início, percebemos que só seria possível mudar essa visão mudando cultura, e cultura se muda com educação. Foi assim que nasceu a Academia do Mel, o braço educativo da Mbee. Em encontros gratuitos, principalmente voltados a pessoas ligadas à gastronomia, eu e Eugênio explicamos as diferenças entre os meles, a relação com sustentabilidade, biodiversidade, pequenos produtores e geração de renda. Já fizemos mais de 130 edições em São Paulo e no Rio de Janeiro.

A Mbee liderou o movimento de tornar o mel brasileiro mais conhecido e reconhecido, mostrando que o Brasil tem meles extraordinários, talvez os melhores do mundo, justamente pela diversidade de abelhas, floradas e biomas. Hoje, muitos chefs brasileiros já entenderam isso e levam meles de abelhas nativas para apresentar ao mundo. Mas esse trabalho ainda precisa se expandir. A Mbee completou 12 anos mantendo a educação como eixo central, e temos projetos de livro e documentário para levar esse conhecimento a mais pessoas, escolas e educadores. É como uma colmeia: a informação precisa voar, se multiplicar e gerar prosperidade. Hoje, essa rede já reúne mais de 80 produtores em 16 estados, mostrando a riqueza dos nossos biomas e ajudando a dar valor a um produto profundamente brasileiro.

Direto do meu Instagram

Essa Semana Eu…

Me emocionei demais com o monólogo de Viviane Mosé, filósofa e psicanalista, a que assisti no teatro J. Safra — se chama “Um sim à vida”— interessante demais


Fui convidada para as comemorações dos 20 anos do Restaurante Amado, de Salvador: 14 de julho — Edinho Engel cozinha com os chefs Rafa Costa e Silva, Fabrício Lemos e Lisiane Arouca


Fui dirigida por Joana Mariani para a gravação de um documentário sobre Sig Bergamin: muito bom falar sobre vida, obra e sucesso dele


Amei a nova collab da Adidas com a Liberty, de Londres


Soube que Sidarta Ribeiro falará sobre sonhos no dia 25, na galeria Claraboia: pena que eu não vou estar em São Paulo, porque sou megafã dele


Fiquei encantada com Marisa Monte cantando João Gomes em um forró de São João em Campina Grande


Comprei um par de sapatos e outro de sandálias, além de uma bolsa de camurça, para usar como pochette, na Mafalda — admiro demais tudo que eles fazem


Gostei da modernidade do look da primeira-dama de Nova York, Rama Duwaji, criado por Claire Sullivan, na comemoração do jogo dos Lakers


Não consegui participar do jantar na casa de Rafael Trindade, em homenagem à artista plástica Mariana Palma


Ganhei um pulôver lindo de lã, com gola rolê, de Renata Pileggi — uma amiga que eu gosto muito: como é bom um presente com afeto e sentimento…


Fiquei emocionada e feliz com a volta de Clarinha para casa, depois de três semanas de tratamento na clínica veterinária


Achei engraçado que a Balenciaga entrou de vez na febre wellness com uma linha lançada em Paris, numa pop-up com smoothies, barras energéticas e outras gracinhas do gênero


Descobri que a Fortnum & Mason elevou o piquenique londrino a outro patamar: para ornar com suas cestas de vime e drinks borbulhantes, a loja criou um passeio de barco pelo Tâmisa, com pôr do sol e vista de cartão-postal


Me emocionei com Maria Bethânia completando 80 anos — na quinta-feira, com direito a encontro com poucos amigos, no Rio


Passei uma manhã inteira no estúdio de Vik Muniz, na Gávea: momentos deliciosos que fizeram parte da viagem de arte do Iguatemi, comandada por Flávia Kujawski e com o crítico Agnaldo Farias como curador e com um grupo de mulheres fantásticas!

Vi o novo corte de cabelo de Penélope Cruz: mais moderno e mais iluminado, mas confesso que o look clássico dela me agradava mais

video preview

Como não celebrar Vozinha, o goleiro-sensação do time do Cabo Verde na Copa? Fiquei emocionada com a história e achei que nada melhor do que homenagear esse herói com uma canção mítica de Cesária Évora, a maior cantora conterrânea dele. Aqui neste video, ela ao vivo, em Paris.

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