Pois é: agora vai ser um festival de Copa do Mundo sem fim… Eu, que não sou do ramo, estou sentindo os efeitos e, para ser sincera, apesar de torcer muito para o Brasil levar a taça, não fico muito confortável nesse trajeto todo de disputas. Um misto de ansiedade com não sei mais o quê… Enquanto isso, estou tratando de alimentar minha alma e minha cabeça com outras possibilidades. Respeito e muito o gosto e a vontade de todos, mas também preciso de um tempo sem tanto verde e amarelo. Vou em breve para um festival de literatura na cidade do Porto, em Portugal, e isso está me deixando muito animada. Acompanharei palestras de escritores que admiro, autores que moldam, de alguma maneira, a minha vida, meus pensamentos, meus desejos. Celebro o fato que tem de tudo, tem pra todos. Portanto, sigamos em frente. E antes que eu me esqueça… gol!!!!!!!!!
Ilustração: Maria Eugenia
CORRENDO PARA O ABRAÇO
Tem coisa mais sofisticada do que poder ligar para uma amiga e falar a verdade? Inteira? Sem pose. Sem aquela diplomacia cansada que a vida adulta exige da gente. Às vezes, só mesmo para chorar…
Li uma reportagem muito bonita no The Wall Street Journal sobre a força das amizades entre mulheres — e fiquei pensando nisso: no quanto essas relações sustentam a vida, sem fazer alarde. Há algo muito particular nesse jeito feminino de se vincular. Enquanto muitos homens tendem a conversar mais sobre esportes, notícias e assuntos externos, as mulheres costumam entrar direto no miolo da existência. Medos. Frustrações. Tristezas. Ciúmes. Aquilo que a gente normalmente tenta maquiar antes de sair de casa. Talvez por isso uma pesquisa do Pew Research Center mostre que 54% das mulheres procuram amigos em busca de apoio emocional, contra 38% dos homens. Não é pouca coisa. É quase uma arquitetura secreta de sobrevivência.
E isso tem efeito no corpo, na cabeça, na saúde. Uma amizade íntima reduz estresse, organiza o caos e cria uma rede invisível que segura a gente quando o chão resolve desaparecer. Outra pesquisa citada no texto mostra que uma em cada três mulheres com mais de 50 anos acredita que essas amizades femininas trazem mais felicidade do que as relações românticas. Achei forte. E achei verdadeiro.
E não é de hoje que penso isso: faz tempo que eu tenho observado esse movimento, desde o início dos anos 2000. Porque amor romântico pode ser lindo, claro. Mas amizade feminina tem uma espécie de permanência sem espetáculo. Não precisa de trilha sonora. Não precisa de grande cena. Está ali, no telefonema, no e-mail, no texto comprido, na mensagem mandada no meio do dia com uma frase que diz: estou aqui.
O mais interessante é que essa intimidade não nasce pronta. Ela é construída. Um professor da Universidade do Kansas lembra que vínculo profundo exige troca honesta e constante. É preciso contar a vida para alguém. Repartir o banal e o trágico. O divórcio doloroso. A bobagem do dia. A mágoa pequena. O medo enorme. A alegria inesperada.
Já as amizades muito longas ficam mais resistentes aos pequenos atritos porque carregam investimento demais para serem descartadas por qualquer coisa. Gosto disso. A maturidade talvez seja parar de exigir que o outro seja impecável. É sempre necessário entender as diferenças. Aceitar fases. Não sumir na primeira tempestade. Tem até uma expressão em inglês que é ótima: “fair-weather friend”, aquele amigo do “tempo bom”, que só aparece quando o céu está azul. Todo mundo já teve um desses. E todo mundo sabe a diferença entre companhia e abrigo.
O curioso é que a gente vive dizendo que quer mais proximidade, mas não encontra tempo para essa prática. Um dos artigos sobre esse tema aponta que cerca de 40% das pessoas sofrem por desejar relações de amizade mais íntimas, mas dizem não conseguir se dedicar a elas. É triste. E é revelador. Porque, com certeza, a solidão contemporânea não vem só da falta de gente ao redor. Vem também da falta de manutenção. A gente cuida do trabalho, do corpo, da pele, da agenda, do algoritmo. Mas esquece de cuidar de quem nos conhece sem precisar de legenda.
Amizade é uma forma de coragem. Coragem de aparecer sem performance. De ouvir sem resolver. De ficar. De investir numa relação que não vem com contrato ou cerimônia. E, ainda assim, pode ser uma das grandes preciosidades da nossa vida.
Cultivar uma amizade profunda é quase um gesto de resistência. E de bom gosto, convenhamos. Porque poder ser inteiramente você diante de alguém, com suas fraquezas, seus vexames, suas contradições e ainda assim se sentir acolhida é raro. E muito necessário.
A gente vive como se a felicidade fosse um projeto de vida. Um apartamento com pé-direito duplo, luz perfeita, agenda organizada, corpo em dia, mente quieta, trabalho resolvido e tempo sobrando para respirar abraçando uma árvore. Pois é. Só que, na vida real, a felicidade costuma ser bem menos cenográfica. E bem mais miúda.
Li no The Washington Post sobre uma professora de psicologia, Sonja Lyubomirsky, da Universidade da Califórnia, que estuda a ciência da alegria há 30 anos e gostei muito de uma coisa: mesmo com quatro filhos, dois empregos e uma rotina que certamente não deve ter muito espaço para contemplação, ela não trata a felicidade como uma grande reforma interior. Trata como prática. Como gesto. Como repetição. Como essas pequenas coisas que a gente quase despreza porque parecem simples demais para funcionar.
E talvez seja aí que mora o problema. A gente complicou até o bem-estar. Se não dá para fazer uma hora de academia, não faz nada. Se não dá para meditar num cenário de retiro espiritual, segue engolindo ansiedade no seco. A vida vai ficando cheia de adiamentos nobres. E, no fundo, bem pobres.
Sonja defende o contrário. Uma corrida de quinze minutos já conta. Respirar fundo por alguns instantes também. Abraçar um amigo. Andar de mãos dadas. Parece pequeno, quase infantil, mas o corpo entende. O toque libera ocitocina, esse hormônio bonito que dá uma sensação de calma e pertencimento. E a gente, tão moderno, tão cheio de aplicativo, às vezes esquece que um abraço ainda é uma tecnologia sofisticadíssima. Das antigas. E maravilhosa. Ouso até dizer transformadora…
Outra coisa interessante foi a ideia de trocar a conversa automática pela conversa de verdade. Não precisa transformar todo encontro em sessão de análise, claro. Mas existe uma preguiça emocional contemporânea. A gente fala de trânsito, de agenda, de séries, de obras, de restaurantes, e vai deixando o essencial do lado de fora. Por medo de parecer intenso demais, talvez? Por medo de invadir? Por medo de ser julgado? Só que as pessoas querem mais profundidade do que imaginamos. Querem ser vistas. Ser sentidas. Querem falar do que aperta. Querem sair um pouco da superfície.
Tem também a questão da espiritualidade. Não necessariamente religião formal. Pode ser silêncio. Pode ser um senso de propósito que organize o caos sem precisar explicá-lo por inteiro. A felicidade, pelo que entendi, gosta desse tipo de chão. Precisa de alguma coisa maior do que a nossa lista de tarefas.
E aí vem a parte mais simples, e talvez por isso, mais difícil: gratidão. A própria pesquisadora achava meio brega fazer diário de gratidão. Confesso que entendo. Tem algo meio almofada bordada nessa ideia. Mas ela se rendeu. Hoje mantém um arquivo no computador para registrar coisas boas. Nada monumental. Só o exercício de não deixar o que deu certo passar batido, enquanto o que deu errado ocupa a sala inteira, senta no sofá e ainda pede café.
Achei tudo isso quase um manifesto contra a nossa mania de grandiosidade. A felicidade possível não exige uma vida perfeita. Exige atenção. Um pouco de corpo. Um pouco de presença. Um pouco de coragem para conversar. Um pouco de fé em alguma coisa. Um pouco de pausa para sentir o gosto da comida ou ouvir uma música sem fazer mais três coisas ao mesmo tempo. E a conclusão que fica, para mim, é que talvez a felicidade não seja uma chegada triunfal. Talvez seja uma prática doméstica. Discreta. Repetida. Quase sem glamour, mas profundamente elegante. Com certeza, um belo desafio.
A gente fantasia a herança como uma espécie de passe livre para a vida boa. Uma conta sem sustos. Uma agenda sem boleto. Uma existência almofadada. Mas, na verdade, a herança rendeu uma cena quase cinematográfica: uma reportagem falou sobre uma dúzia de jovens de vinte e poucos anos, reunidos num Airbnb em Austin, no Texas, para aprender uma coisa que parece simples e não é nada simples. Como lidar com uma fortuna que já existe antes mesmo de eles saberem quem são.
Juntas, aquelas famílias somam 7 bilhões de dólares. Não é dinheiro. É um continente. E, ainda assim, o encontro não tinha cara de festa. Tinha cara de treinamento emocional. De acordo com a publicação, clubes de altíssima renda, como o R360, estão criando retiros para preparar herdeiros para a grande transferência de riqueza em curso. Só para a fatia mais rica do topo, foram gerados 2,7 trilhões de dólares nos últimos anos. Muito dinheiro mudando de mãos. Muita expectativa também.
O medo dos pais tem até nome: “affluenza”. Aquela ideia de que excesso de privilégio pode produzir filhos sem rumo, sem desejo de construir. O curioso é que, nesses encontros, os mentores começam tirando uma fantasia da frente. Dizem a esses jovens que é quase impossível repetir a façanha financeira dos pais. Ou seja: a régua precisa mudar. O sucesso talvez não seja multiplicar a fortuna, mas aprender a não ser engolido por ela.
E aí aparece uma angústia menos óbvia. A tal “síndrome da grande sombra”. Como crescer quando a sombra da família já ocupa a sala inteira? Como errar sem virar decepção? Como trabalhar sem parecer decorativo? No retiro, eles simulam investimentos imobiliários e conversam sobre temas que parecem de outro planeta, mas são muito humanos: amizade, culpa, comparação, medo de ser visto apenas como um nepo-baby.
Tem algo fascinante nesse teatro do privilégio. Porque, por trás da bolha, o drama é antigo: todo mundo quer pertencer a si mesmo. Mesmo quem nasce com muito precisa descobrir o que é seu de verdade. Não a casa. Não o trust. Não a cadeira no conselho. Seu mesmo.
Transferir dinheiro parece ser a parte fácil. O difícil é transferir maturidade. Ensinar alguém a discordar dos primos sem destruir a família. A se sentar numa mesa de decisão sem virar enfeite. A escolher um caminho sem passar a vida pedindo licença aos antepassados. Talvez a grande ironia seja essa: quem já nasce no alto também precisa aprender a subir alguma coisa. Nem que seja uma escada inventada por si próprio. Porque fortuna pode comprar silêncio, segurança, chef, casa, acordo, consultor. Mas identidade, essa danada, continua exigindo um trabalho muito pouco terceirizável.
A gente mal tinha aprendido a pedir leite de aveia sem fazer cara de turista no café e pronto: o mundo do bem-estar já mudou de lado. Sai o suco verde. Entra o caldo de ossos. Sai o hambúrguer de planta. Entra o bife imenso, o ovo, a manteiga de gado criado no pasto. A indústria que até ontem parecia ajoelhada diante da couve agora resolveu vestir avental de açougueiro.
O mais curioso é que essa virada não aconteceu no prato. Aconteceu no feed. Influenciadoras que antes pareciam viver de arroz de couve-flor agora aparecem defendendo gordura animal, leite cru, carne vermelha, uma vida supostamente mais ancestral. Teve gente que transformou o gesto de ordenhar a própria vaca e fazer manteiga em espetáculo doméstico para milhões. É bonito de ver? É. Dá vontade de morar numa fazenda cenográfica por cinco minutos? Também. Mas aí vem a pergunta: em que momento a busca por saúde virou uma novela de época com luz natural e patrocinador?
A justificativa, claro, tem seu charme: a ideia é fugir dos ultraprocessados que invadiram muitos substitutos de carne e leites vegetais. Faz sentido desconfiar de rótulos intermináveis. Faz sentido querer comida de verdade. O problema é quando essa intuição boa escorrega para outro extremismo, apenas com figurino diferente. Porque a indústria da carne e dos laticínios entendeu rapidinho a oportunidade e entrou em cena com marketing, dinheiro e narrativa. Nada mais contemporâneo do que vender o “natural” com uma máquina muito bem azeitada por trás.
Mas o ponto mais delicado talvez seja outro. A dieta virou identidade. Comer deixou de ser apenas comer. Virou senha de pertencimento, bandeira, posição no mundo. Se, em outros momentos, o cardápio à base de plantas aparecia como sinal de consciência ambiental e ideias progressistas, agora a volta triunfal da carne vermelha e do leite cru vem embalada por valores mais tradicionais.
Só que a ciência, essa senhora pouco afeita a trends, continua mais sóbria. Dietas baseadas em plantas, como a mediterrânea, seguem apontadas como um caminho muito sólido para viver mais e melhor. Inclusive, a pesquisa Mais Dados Mais Saúde, da Vital Strategies, Umane e Instituto Devive, com apoio técnico do Instituto Nacional do Câncer (INCA), mostrou que grande parte dos brasileiros entrevistados não reconhece que ultraprocessados e carne vermelha podem ser fatores de risco para câncer. Nada muito sexy. Nada viral. Mas talvez justamente por isso mereça atenção.
Mas, como algoritmo não gosta do meio-termo, moderação também não rende vídeo arrebatador. Bom senso não dá muita legenda. Comer de tudo um pouco, escolher alimentos menos processados, desconfiar dos milagres, ouvir o corpo sem transformar cada refeição em manifesto… tudo isso parece quase sem graça diante do barulho. Mas talvez seja aí que esteja a elegância.
Porque, convenhamos, cansa muito trocar de religião alimentar a cada temporada. Uma hora a salvação está nas verduras e legumes. Depois, no boi. Antes, no detox. Depois, na manteiga. E a gente ali, só tentando jantar em paz…
Ilustração: Maria Eugenia
DANDO NOMES AOS “BOIS”
Tem dias em que a emoção chega antes da gente. Vem a raiva, vem a tristeza, vem aquele aperto no peito, e a primeira vontade é fugir. Fazer qualquer coisa. Mexer no celular, tomar um café, responder uma mensagem, mudar de assunto. Só que, às vezes, o gesto mais simples é também o mais sofisticado: dizer o que está acontecendo. “Estou com raiva.” “Estou triste.” “Estou com medo.” Parece pouco, mas é muito.
De acordo com um artigo sobre um estudo antigo (mas muito atual) da Universidade da Califórnia, o neurocientista Matthew Lieberman mostrou que colocar sentimentos em palavras tem um efeito real no cérebro. Quando uma pessoa olha para uma imagem que provoca medo ou raiva e simplesmente nomeia a emoção, a atividade da amígdala diminui. A amígdala, esse nosso alarme interno, perde um pouco da força. Ao mesmo tempo, uma área logo atrás da testa entra em cena para ajudar a regular aquilo tudo. É quase elegante, né? A palavra funcionando como freio. Não resolve a vida. Mas tira o pé do acelerador.
O bom dessa história é que não se trata de fingir que está tudo bem. Não é pensamento positivo de papinho motivacional. Não é “levanta a cabeça” dito no piloto automático. É o contrário: é olhar para o incômodo e dar nome a ele, sem maquiagem. E só isso já muda alguma coisa. Que loucura pensar que, muitas vezes, a gente não precisa vencer a emoção. Precisa apenas reconhecê-la.
A ciência, nesse ponto, acaba encostando numa sabedoria muito antiga. O estudo também conversa com a mindfulness, essa prática de atenção plena que ensina a observar o presente sem sair julgando. Segundo os pesquisadores, quem tem o hábito de perceber e nomear o que sente consegue acionar melhor os mecanismos do cérebro que acalmam o pânico. Ou seja: aquilo que tradições budistas vêm dizendo há 2.500 anos ganhou uma espécie de confirmação neurológica.
Que lindo que é parar de tentar parecer tão forte o tempo inteiro. A gente vive num mundo que exige performance até na vulnerabilidade: tem que sofrer bem, reagir rápido, superar bonito. Só que há uma delicadeza enorme em admitir, em voz baixa: “isso está doendo”. Dar nome ao que sentimos não é fraqueza. E sim, uma pequena tecnologia íntima.
Se Veneza já é bom, imagine Veneza com Bienal: nas ruas e nos restaurantes, só mesmo a turma da arte do mundo todo. Uma de minhas viagens preferidas é justamente essa, que une cultura, história e entretenimento. Circular pelas ruas, canais e palácios venezianos foi o que me inspirou esta semana nos corredores do Iguatemi. E viva a arte, tão necessária!
1 - Para um Negrone ou um Bellini no início da noite no Harry’s Bar, esse modelo da Framed, na Gallerist, garante a entrada triunfal
2 - Para andar para cima e para baixo, essa bolsa da Hermès nesse tom de azul que nos faz sonhar…
3 - Para entrar e sair de uma lancha Riva ou mesmo dos vaporettos, só mesmo uma sandália flat como essa, nesse tom marrom escuro, de Christian Louboutin
4 - Para circular pelo Gran Canale, que tal esse chapéu tipo bucket da Prada? Efeito de rafia e puro encanto
5 - Ao voltar bem tarde para o hotel, um descanso, por favor! O creme reparador da Sisley é como um abraço, daqueles bem merecidos
Foto: Gustavo Morita/Divulgação
3 perguntas para
Alexandre Sayad pertence a uma geração de pensadores que percebeu cedo que a mídia não é apenas um canal por onde o mundo passa, mas uma das lentes pelas quais aprendemos a enxergá-lo. Jornalista, educador, escritor e pesquisador das relações entre comunicação, tecnologia e educação, ele trata a educação midiática como uma alfabetização do nosso tempo: uma forma de ler imagens, algoritmos, notícias, plataformas, interesses, ruídos e silêncios. Em sua visão, formar pensamento crítico hoje é ensinar a atravessar um mundo mediado por telas sem perder a capacidade de perguntar, imaginar e duvidar.
Agora, com a série internacional “The Disinformation Diaries”, ele leva essa investigação para uma escala global. Foram mais de 30 entrevistas, em sete países, com pessoas que observam a desinformação a partir de lugares muito distintos. O resultado é um retrato multifacetado de um fenômeno que não pode ser visto apenas como acidente da internet, mas como sintoma cultural, social, técnico e político do nosso tempo.
1. Muito se fala em “educação midiática” como se ela fosse apenas uma forma de ensinar a identificar fake news: o que se perde quando o tema é reduzido a isso?
Eu vejo a educação midiática quase como um “letramento” contemporâneo. Ler o mundo precede ler as palavras — essa é uma colocação de Paulo Freire. Além da arte, literatura, conversas, ciência etc., as gerações pós-rádio (1930) acabam lendo e compreendendo o mundo também pelas mídias. Então, a educação midiática é um conjunto de conhecimentos e habilidades que nos auxiliam na leitura do mundo — criticamente, criativamente, analiticamente. Como funcionam os algoritmos, como utilizá-los preservando nossa privacidade, o que garante a qualidade de uma informação que consumimos, como podemos identificar uma informação que parece estranha numa primeira lida, quem ganha com determinada “trend”, como utilizar os meios para a própria expressão: essas são algumas das questões importantes que a educação midiática abrange.
2. Você diz que a inteligência artificial precisa ser vista como mediação e como linguagem, não apenas como ferramenta — o que muda na escola quando a IA deixa de ser tratada como um aplicativo novo e passa a ser entendida como uma nova camada da realidade?
A IA não pode ser comparada a um “martelo” ou a uma “chave de fenda”. A palavra "tool" foi muito mal traduzida para o português e usada algumas vezes para diminuir a importância de algo frente a uma situação. Por exemplo, quando dizemos que determinada aplicação é “somente uma ferramenta”, há certo menosprezo nessa observação. Algo do tipo: “sem ela é possível se fazer o mesmo”. Não é bem assim. Acho que perdemos compreensão do todo quando atribuímos um olhar “instrumental" sobre um fenômeno que tem um impacto tão abrangente na sociedade. Muitos pesquisadores colocam a inteligência artificial como uma TPG - Tecnologia de Propósito Geral. Assim como o “motor a vapor”, a “eletricidade” e o microchip, são tecnologias que impactam política, sociedade, economia, meio ambiente, educação. Por outro lado, ficamos obcecados pela inteligência artificial generativa e nos esquecemos dos algoritmos que mediam quase a totalidade das nossas relações digitais — recortam o mundo à nossa volta.
Pensando na escola, educar “para" a inteligência artificial é diferente de educar “sobre" a inteligência artificial. Não precisamos de lições unicamente técnicas, mas sobretudo humanas; o desafio é descobrir a humanidade nesse tempo, preservá-la e mantê-la no centro das decisões. Nesse sentido, gosto de uma proposta curricular da Unesco que prevê as camadas de educar “para”, “sobre" e “com” a inteligência artificial.
3. Você acaba de lançar “The Disinformation Diaries” e, depois de ouvir políticos, jornalistas, pesquisadores, professores, estudantes e até ex-diretores do Google, o que mudou na sua própria compreensão sobre a desinformação? Esse processo deixou você mais preocupado ou esperançoso?
A principal mudança foi compreender a complexidade desse fenômeno. A causa da desinformação não é o excesso de informação circulando. Reduzir a isso significa quase "passar o pano” em questões políticas, econômicas, sociais e técnicas que estão por trás do que vivemos. Há um aspecto que acho inédito na abordagem dessa série, que é sobre o papel da cultura pop e do cinema em contribuir com a desinformação. Saber distinguir uma narrativa fantasiosa de uma real parece algo simples, mas não é se a educação de um povo não o forma como público leitor e espectador — a arte exerce um papel fundamental em nossa vida para lidar com questões complexas. Precisamos lembrar que a informação não é distribuída de maneira igual, nem mesmo dentro de um mesmo país. Além disso, informação de qualidade continua sendo um ativo de poder político. Por outro lado, o desafio sociotécnico da inteligência artificial também torna pouco transparentes as regras com as quais determinada notícia chega em nosso feed, e outras não.
Como educador, sou sempre mais esperançoso do que como jornalista. É uma esperança "compulsória", ou então é melhor desistir do que faço. Estou há mais de vinte anos trabalhando em aspectos desse tema. Temos que colocar a cabeça para funcionar para reagir de maneira complexa, tal qual o tempo que vivemos nos exige.
Vi uma bolsa da Balenciaga que amei: parece uma releitura da Birkin, mas com aquela modernidade e irreverência tradicionais da marca
Caí de amores por umas sandálias bem pé no chão, de uma das minhas estilistas favoritas, a Phoebe Philo
Acompanhei de longe o sucesso de Fabi Gabas Kallás na Bienal de Curitiba
Amei o estilo, de verdade, de Dua Lipa na véspera de seu casamento em Palermo: relax, de biquíni, camisa masculina, pano amarrado na cintura e flip-flops
Fiquei sabendo que o México decidiu reivindicar o doguinho caramelo como tesouro nacional, quase como uma raça nativa — no Brasil, claro, a notícia mexeu com um patrimônio afetivo: o vira-lata caramelo, ícone de rua, meme, camiseta e orgulho nacional
Vi que, depois de fazer a curadoria da mostra de Sandra Anselmi na Mata Lab — que amei — Lilian Pacce chega à 4ª edição do BCFT - Brazil Creating Fashion For Tomorrow, que acontece na semana do clima de Londres — a Caatinga é o foco
Gostei demais da coluna de Antonio Prata na Folha de S.Paulo domingo passado, sobre a magia do ato de escrever
Participei da imensa plateia de Fernanda Torres no monólogo baseado no livro “A Casa dos Budas Ditosos”, de João Ubaldo Ribeiro: uma mulher devassa e uma vida mais devassa ainda, um espetáculo inesquecível
Vi que a estilista Paula Raia lançou uma coleção de óculos
Não consegui ir, como havia previsto, ao lançamento da Prasi com a Jo de Mer na Casa Iramaia — quanta coisa linda
Fui surpreendida pela belíssima capa do livro sobre o cineasta Ingmar Bergman, recém-lançado pela Cosac
Caí de amores por aqueles óculos enormes, queridinhos da turma da moda no momento, com assinatura da Celine
Descobri o guia de Jorge Forager, uma coleção de 50 cartas sobre plantas medicinais nativas e naturalizadas da Mata Atlântica, com ilustrações de antigos naturalistas — uma pequena joia para quem ama botânica, arte e cura pelas plantas
Fiquei muito emocionada ao ver no programa de Eliana, num recorte no GNT, onde Junno Andrade faz uma declaração de amor à sua mulher, Xuxa: que casal bem encaixado!
Recebi a notícia de que a Dorchester Collection anunciou a renovação da distinção Palace, concedida às suas duas propriedades parisienses, os hotéis Le Meurice e Plaza Athénée, por mais um período de três anos — chic
Fiquei de olho na vinda, ainda este ano, do tenor José Carreras, um dos meus favoritos, para se apresentar aqui em São Paulo, no Vibra
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Percebi que vai ter congestionamento no São João de Salvador: na mesma terça-feira, dia 16, Gilberto Gil será a grande atração do Arraiá do Alô Alô Bahia, no Trapiche Barnabé — exatamente no dia em que minha amiga Licia Fábio arma seu famoso forró no Palacete Tira Chapéu, desta vez, junto com seu aniversário
Fiquei encantada com o convite que recebi do Lapinha Spa: uma semana de cuidados especiais, tendo a participação especial da fisioterapeuta Laura Della Negra
Passei uma tarde de conversas e chá com Rafael Moraes, no magnífico apartamento dele
Me permiti algumas horas preciosas sob os cuidados de minha dermatologista, Dra. Paula Rahal
Descobri a Minimal, em Taiwan, a primeira sorveteria do mundo a ganhar uma estrela Michelin. Por lá, sorvete vira experiência sensorial, com textura, aroma, temperatura e ingredientes taiwaneses mudando conforme as estações
Assim, com Mano Brown e Jorge Ben Jor, até eu gosto de futebol... Como backing vocals, as cantoras Céu, Thalma de Freitas e Anelis Assumpção fizeram de “Umbabarauma”, em 2010, essa maravilha. Futebol é isso. Gol!
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