Escrevo este texto sentada no magnífico Bar Luce, criado pelo cineasta Wes Anderson, na Fondazione Prada, em Milão. Há muito tempo não vinha para cá e estar neste momento aqui para conhecer tudo isso é um sonho. Muitas vezes, sinto muito claramente o quanto tenho sorte e o quanto sou privilegiada de viver esses momentos únicos. Nesta viagem de uma semana entre Roma e Milão, a convite dos hotéis Eden, de Roma, e Principe di Savoia, de Milão, ambos da Dorchester Collection, tive alguns momentos muito únicos e dois deles foram surpresas criadas pelos hotéis. Em Roma, fomos levados para um mosteiro perto do Coliseu e, depois de uma subida a pé e de outros tantos degraus, chegamos no estúdio de um artista plástico… brasileiro, acredite. Sidival Fila nasceu no Paraná, é frade e mora há mais de 20 anos em Roma, onde desenvolveu uma carreira paralela de artista plástico e é reconhecido no mundo e representado no Brasil pela Galeria de Luisa Strina. Não é pouca coisa. Por indicação da própria Luisa, eu havia marcado um encontro com ele na terça-feira de tarde. Não é que quando começou a visita-surpresa organizada pelo hotel, eu descobri que era justamente lá que eu deveria estar à tarde? Achei a coincidência um sinal de que a viagem tinha muito ainda a me entregar. A obra de Sinival Fila usa tecidos antigos como base de muitos trabalhos. Ainda vamos falar dele nas próximas semanas por aqui na Caixa Postal. Outra grande surpresa foi em Milão: a visita a uma vila tipicamente milanesa, organizada pelo hotel Principe di Savoia, onde estávamos hospedados. A Villa Necchi Campiglio foi escolhida como inspiração para a reforma que o hotel vai passar, a partir de janeiro. Ao entrar no jardim, antes de chegar na casa propriamente dita, reconheci aquele espaço por causa de um filme que me marcou muito, esteticamente falando. Era estrelado por Tilda Swinton, com direção do italiano Lucas Guadagnino. O filme se chama, em inglês, “I am love”. Em italiano, “Io sono amore”. O arquiteto responsável pela obra, art deco Italiano dos anos 30, foi Piero Portaluppi.
Esses foram dois pontos altos de uma viagem de conhecimento, aprendizado e novos repertórios: tudo que eu mais gosto. Sim, sou uma felizarda.
Ilustração: Maria Eugenia
QUERO UM ABRAÇO
Durante tempo demais, muitos homens aprenderam que intimidade era quase uma ameaça: podiam dividir cerveja, futebol, pescaria, trabalho, mas não necessariamente medo, frustração ou tristeza. O problema é quando essa dificuldade de se abrir passa a ser tratada como se fosse apenas um jeito diferente, quase charmoso, de se relacionar. Convenhamos que não é bem assim.
Li um ensaio muito interessante do escritor Tyler Austin Harper na The Atlantic sobre essa diferença. Ele conta que estava na cozinha de um amigo, tomando cerveja e preparando anzóis para uma pescaria, quando a mulher do anfitrião perguntou como os dois conseguiam passar tanto tempo juntos sabendo tão pouco da vida pessoal um do outro. A resposta foi ótima: eles tinham muitos peixes sobre os quais conversar. Engraçado, claro. Mas fiquei pensando também no que cabe dentro dessa piada.
Segundo Geoffrey Greif, professor da Universidade de Maryland, as mulheres tendem a construir amizades mais “face-to-face”, frente a frente, enquanto os homens muitas vezes preferem o “shoulder-to-shoulder”, ombro a ombro. Jogam, pescam, consertam alguma coisa, trabalham juntos. Acho bonita essa ideia de intimidade criada pela convivência, sem a obrigação de narrar cada sentimento. Só não sei se devemos romantizar demais o silêncio: sim, existe uma diferença entre não precisar falar o tempo inteiro e simplesmente não saber falar quando é necessário.
O exemplo do antropólogo Thomas Yarrow, da Universidade de Durham, mostra bem essa ambiguidade. Depois de um divórcio, ele entrou para um grupo de voluntários que restaurava trens antigos na Inglaterra. Encontrou apoio entre homens que passavam horas trabalhando juntos, entre ferramentas e graxa. Quando alguém percebia que o outro estava mal, oferecia um chá, companhia, um gesto discreto. É delicado e funciona. Mas também me pergunto quantas vezes um homem recebe esse chá quando, na verdade, gostaria de conseguir dizer algo tipo “estou péssimo”.
Durante muito tempo, os homens foram educados para resolver problemas, esconder vulnerabilidades e seguir em frente. A conta aparece depois. Quando uma relação termina, alguém adoece, o trabalho desmorona ou a solidão aperta, nem sempre existe qualquer força para pedir ajuda. E aí a amizade corre o risco de ficar limitada ao assunto seguro: o jogo, o carro, o peixe, qualquer coisa que evite chegar perto demais do que dói.
Richard Reeves, do American Institute for Boys and Men, lembra ainda que os espaços de convivência masculina vêm desaparecendo. Clubes fecham, atividades ficam caras demais, o trabalho acontece cada vez mais diante de uma tela. Isso piora tudo, claro. Sem encontros, os vínculos enfraquecem. Mas espaço de convivência sozinho também não resolve uma dificuldade que começa muito antes, na educação emocional.
Gosto muito da ideia de duas pessoas poderem passar uma tarde juntas sem transformar o encontro numa sessão de psicanálise. Amizade também mora no silêncio, no gesto e na repetição. Mas talvez a questão seja outra: conseguir ficar em silêncio por escolha, e não porque nunca se aprendeu a encontrar as palavras. Falar sobre sentimentos não diminui o valor do ombro a ombro. Às vezes, só faz com que, quando a vida aperta, exista alguém ao lado que saiba ouvir de verdade.
O sentido da vida / Fotos: Reprodução Instagram
A BELEZA DO QUE FALTA
Sabe aquela pilha de livros que vai crescendo ao lado da cama ou na estante, todos comprados com a firme intenção de serem lidos logo? Pois é. A gente adia um, começa outro, compra mais dois e, quando percebe, montou uma pequena biblioteca — de promessas. Os japoneses têm até uma palavra para isso: "tsundoku". Trata-se do hábito de acumular livros que ainda não foram lidos.
Achei delicioso descobrir que esse conceito apareceu no mais recente desfile da Valentino, assinado por Alessandro Michele. A inspiração veio da ideia de “antilibrary”, a “antilivraria”, desenvolvida a partir de uma reflexão do autor libanês-americano Nassim Nicholas Taleb sobre a biblioteca pessoal do escritor Umberto Eco. Para Taleb, os livros que Eco ainda não tinha lido talvez fossem justamente os mais interessantes. Eram a parte visível de tudo aquilo que ele ainda não sabia.
Alessandro Michele levou essa ideia para a moda. E aí a coisa fica boa. Porque um armário também é cheio de possibilidades que ainda não aconteceram. Roupas que compramos e não vestimos. Peças que ficam esperando uma ocasião, um humor, outra versão de nós mesmos. Em vez de olhar para isso como desperdício ou culpa, ele propôs enxergar o que ainda está por vir.
O gesto mais bonito do desfile aconteceu antes mesmo de as roupas entrarem em cena. Os convidados foram chamados a levar um livro, novo ou retirado da própria estante. Depois, essas obras foram doadas a bibliotecas públicas de Paris e de outras cidades pelas organizações Bibliothèques Sans Frontières e Fauvettes City Club. O livro que estava parado ganhou a chance de cair nas mãos de outra pessoa.
Tudo isso aconteceu na Bibliothèque Sainte-Geneviève, em Paris, em frente ao Panthéon. A biblioteca guarda cerca de dois milhões de documentos. Difícil imaginar cenário melhor para falar sobre conhecimento, desejo e tudo aquilo que ainda não alcançamos.
Vivemos querendo dar conta de tudo. Ler todos os livros. Usar todas as roupas. Terminar todas as listas. Como se qualquer coisa deixada pela metade fosse um fracasso esperando julgamento.
Talvez exista uma beleza especial justamente no contrário. Na estante que ainda guarda mistério. No vestido que ainda não encontrou sua noite de estreia. No livro que continua fechado, porque, por enquanto, ele representa mais uma possibilidade do que uma resposta.
Nem tudo precisa ser consumido imediatamente para ter valor. Algumas coisas podem simplesmente ficar ali, esperando. E talvez seja bom lembrar que uma vida interessante também é feita daquilo que ainda não sabemos.
Sempre achei bonito ver casais mais velhos andando de mãos dadas. Aquele gesto tão simples, quase automático, que a gente costuma associar ao romantismo. Ai, que lindo… Mas li um texto no The New York Times que me fez olhar para essa cena de outro jeito. O autor conta que continua segurando a mão da mulher, Ginny, como fazia quando os dois ainda estavam no colégio. Só que agora existe uma razão bastante prática: se um tropeça, o outro ajuda a recuperar o equilíbrio. Achei isso de uma delicadeza enorme. E bastante engraçado! Depois de tantos anos juntos, o amor também serve para evitar um tombo na calçada.
E fiquei pensando na quantidade de coisas que fazemos com as mãos. A gente cumprimenta, consola, aplaude, reza, pede ajuda. Fecha negócios com um aperto de mão e, quando a situação aperta, pede uma mãozinha. Um bebê recém-nascido já sabe agarrar o dedo de alguém. Uma criança atravessa a rua segurando a mão dos pais. E, quando começamos a namorar, aquele primeiro encontro entre os dedos pode provocar uma emoção danada. Os Beatles entenderam isso muito bem quando cantaram "I Want to Hold Your Hand": no fundo, passamos a vida procurando mãos para segurar.
O que mais gostei no texto foi a maneira como ele fala do envelhecimento. As mãos que se encontraram na juventude já não são as mesmas. Ganharam rugas, veias aparentes, marcas do tempo. E continuam se procurando. Existe algo muito bonito nessa intimidade que atravessa décadas, especialmente quando o corpo começa a exigir mais cuidado.
Acho curioso como damos tanta importância às grandes demonstrações de amor e, às vezes, prestamos pouca atenção nesses gestos cotidianos. Segurar a mão de alguém pode significar desejo, carinho, proteção ou simplesmente companhia. E tem uma coisa que me comove especialmente: com o passar dos anos, quem antes segurava a nossa mão por vontade de estar perto pode passar a segurá-la também porque precisamos de apoio. E vice-versa, claro.
No fim, achei linda essa ideia de que o amor também tem uma função prática. A gente envelhece, perde um pouco da firmeza, tropeça aqui e ali. Que sorte poder estender a mão e encontrar outra esperando…
Quando foi a última vez que você fez alguma coisa que adorava na infância? Dançar, desenhar, tocar piano, jogar basquete, passar horas entretido com alguma atividade sem se preocupar com o relógio? A gente cresce, assume responsabilidades, paga boletos e, aos poucos, vai abandonando esses pequenos prazeres. Como se amadurecer exigisse deixar para trás tudo aquilo que fazia parte de quem éramos. Engraçado como levamos tão a sério essa história de ser adulto.
Li um ensaio na revista Time sobre o prazer de retomar hobbies antigos. E achei especialmente bonita a ideia de voltar, depois de muitos anos, a uma atividade que o corpo parecia ter esquecido. Você tenta um passo de dança, pega novamente numa agulha, senta diante de um piano, e alguma coisa reaparece. O movimento sai meio enferrujado, a mão perdeu a prática, mas certos aprendizados continuam guardados em algum lugar. E, junto com eles, volta também um pedaço daquela pessoa que passava horas tentando acertar.
Segundo o psicólogo Dan P. McAdams, da Universidade Northwestern, existe algo chamado identidade narrativa: a maneira como reunimos nossas experiências para dar sentido à própria história. Recuperar uma atividade antiga pode ajudar a reconhecer o que permaneceu em nós, mesmo depois de tantas mudanças.
E os exemplos são deliciosos. Tem gente que voltou a fazer crochê, lembrando das tardes em que observava a avó trabalhar com as agulhas. Outros redescobriram o pinball, aquele jogo de fliperama, e acabaram fazendo novos amigos. Tem quem retome o piano depois da aposentadoria ou volte a jogar basquete por influência dos filhos. Cada um encontra um jeito de visitar o passado sem precisar morar nele.
O que atrapalha um pouco é a nossa mania de exigir alguma utilidade de tudo. Se gostamos de cozinhar, alguém sugere vender. Se desenhamos bem, perguntam por que não publicar. Se começamos um hobby, logo aparece a ideia de fazer dele um negócio. Socorro! Parece que desaprendemos a fazer alguma coisa simplesmente porque gostamos.
E talvez seja justamente essa a graça de recuperar uma paixão antiga. Voltar a sentir prazer sem precisar apresentar resultados, melhorar o desempenho ou justificar o tempo gasto. Também gosto da ideia de perceber que, apesar de tudo o que vivemos, algumas partes nossas continuam exatamente onde as deixamos. Às vezes, basta pegar novamente nas agulhas, sentar ao piano ou arriscar uns passos de dança para reencontrá-las. Que delícia tudo isso…
Ilustração: Maria Eugenia
ALEGRIA MULTIPLICADA
A gente passa boa parte da vida tentando ganhar tempo. Vai ao supermercado sozinha, resolve as pendências do carro, organiza as contas, enfrenta o trânsito com os fones de ouvido e segue para a próxima tarefa. Tudo muito prático, muito eficiente. Mas comecei a pensar numa coisa: nessa mania de fazer tudo por conta própria, quantas oportunidades de conviver com outras pessoas estamos deixando passar?
Uma reportagem do The Washington Post conta sobre um estudo publicado na revista científica “Social Psychological and Personality Science” que chegou a uma conclusão deliciosa: praticamente qualquer atividade fica mais prazerosa quando temos companhia. Uma análise de dados de mais de 40 mil americanos, reunindo mais de 100 mil momentos do cotidiano, mostrou um resultado que surpreendeu até os pesquisadores. Estar acompanhado aumenta o bem-estar durante uma caminhada, uma refeição ou uma atividade física, claro. Mas também na faxina, nos estudos, no conserto do carro e até na hora de cuidar das finanças. Quem diria que pagar contas poderia ser mais agradável a dois?
O curioso é que, segundo os pesquisadores, costumamos subestimar o prazer dessas pequenas interações. Existe até um nome para isso: “undersociality”, uma tendência a buscar menos contato social do que nos faria bem. A gente acha que vai incomodar, que o outro está ocupado, que puxar conversa com um desconhecido será inconveniente. E assim vai atravessando o dia dentro da própria bolha. Nicholas Epley, especialista em comportamento da Universidade de Chicago, lembra que a felicidade depende muito da frequência dos pequenos momentos agradáveis. Ou seja, aquela conversa despretensiosa no posto de gasolina pode ter mais importância do que imaginamos.
Alguns defendem uma prática inspirada no “parallel play”, o brincar em paralelo das crianças pequenas: reunir os amigos para trabalhar. Cada um cuida das próprias tarefas, mas todos dividem a mesa, fazem pausas, conversam. Acho ótimo porque a vida adulta criou essa ideia de que encontrar amigos exige uma ocasião especial, uma agenda livre, um programa organizado. E, convenhamos, com a correria de todo mundo, esse encontro acaba sendo adiado indefinidamente.
Claro que precisamos de momentos sozinhos. Eu mesma gosto demais de todos os meus. E a pesquisadora Mahnaz Roshanaei, de Stanford, lembra que o contexto faz diferença: conversar durante uma pausa pode ser mais prazeroso do que interromper uma atividade que exige concentração. Mas acho interessante essa possibilidade de incluir as pessoas nas coisas mais banais da rotina. Por que esperar o jantar de sábado para ver uma amiga se podemos fazer compras juntas numa terça-feira? Ou simplesmente conversar pelo telefone enquanto enfrentamos o trânsito?
Fico pensando em como fomos organizando a vida para depender cada vez menos dos outros. Resolvemos tudo pelo celular, evitamos conversas, protegemos nosso tempo de qualquer interrupção. Só que, nessa busca por eficiência, acabamos eliminando também encontros que poderiam alegrar o dia. Gosto muito da ideia de dividir até as tarefas mais chatas com alguém. Afinal, amizade também se constrói nessas horas, no meio da vida acontecendo, sem grandes preparativos. E que delícia descobrir que até a ciência concorda.
Uma escapada de uma semana entre Roma e Milão basta para aquietar a alma, refrescar as ideias e encher o coração de coisas lindas, cenários, obras de arte e vitrines. Inspirada por esse respiro, fiz minhas escolhas desta semana no Iguatemi. Auguri!
1 - Para fazer bonito nas ruas mais charmosas de Roma, tem coisa mais especial que esse look de seda de Betina de Luca para a BDLN?
2 - Uma mala de cabine suficiente para ter conforto e levar tudo aquilo que a gente precisa: essa da Gucci me encantou
3 - A mesma manta de cashmere leve da Hermès dá para usar como um conforto a mais no avião ou para circular numa noite mais fresca
4 - Uma calça coringa para tomar o café da manhã no hotel com a devida elegância: essa da Alo permite que a gente vá do quarto direto para um prato cheio de frutas do bosque, sem tropeçar no look
5 - Nessa pequena nécessaire em nylon da Prada cabe tudo que a gente precisa ter a bordo ou num dia movimentado pela cidade: creminhos, pasta e escova de dentes, um perfume leve para retocar durante o dia e outras coisinhas mais
Foto: Divulgação
3 perguntas para
Vic Meirelles aprendeu cedo que beleza não precisa durar para deixar marca. Paulistano e formado em arquitetura, descobriu ainda criança, na fazenda da família, em Santa Rita do Passa Quatro, uma intimidade com plantas e flores que acabaria definindo sua vida. Depois de trabalhar em uma floricultura durante a faculdade e passar uma temporada em Londres, transformou esse olhar em profissão e, desde os anos 1990, assina festas, cenografias e arranjos que já atravessaram de grandes casamentos a palácios europeus.
1. O que as flores ensinaram a você sobre a beleza das coisas que não foram feitas para durar?
As flores têm um ciclo, como a gente: nascem, vivem e se vão. E nem por isso deixam de trazer tanta beleza, perfume e energia. Acho que elas nos ensinam a aproveitar essa beleza enquanto estão ali. Se você pensar, tem flor em todos os momentos importantes da nossa vida: no nascimento, no aniversário, no casamento, nas bodas e até na despedida. Elas duram pouco, mas fazem parte de momentos que ficam na memória. É uma alegria trabalhar com isso.
2. O que daquele menino que plantava café na fazenda da família e observava flores continua aparecendo no seu trabalho hoje?
Acho que esse menino continua muito vivo em mim. Continuo com aquela vontade de enfeitar, de deixar tudo lindo, de transformar tudo numa festa. Tenho uma alma de criança, nasci no dia 12 de outubro, Dia das Crianças, pode imaginar? Tudo para mim tem um pouco de folia. Gosto de brincar, de experimentar, de fazer uma coisa que não era bem o que se esperava. Esse lado espontâneo continua aparecendo no meu trabalho e na alegria que eu sinto quando estou criando.
3. Durante muito tempo, você teve regras muito claras sobre coisas que considerava bonitas ou até “bregas”— hoje diz que faz algumas delas: gosto precisa saber mudar para continuar vivo?
Acho que sim. A gente precisa se permitir gostar de coisas que antes não imaginava. Eu adoro o chique e adoro o cafona. Adoro a 25 de Março e adoro a Hermès. Entro num shopping de produtos chineses, vejo aquelas coisas malucas e me divirto! Tenho até uma coleção de coisas kitsch. Mas também tenho meus limites. Outro dia, uma cliente recebeu um vaso e eu falei: "Esse não tem jeito, não entra nem na minha coleção de cafonices!” [risos]
Mudar o gosto não significa gostar de tudo. É ter liberdade para experimentar, para se surpreender. Antes havia mais regras, tudo era mais careta. Hoje sinto as pessoas mais abertas, ousando mais, fazendo misturas que antes não fariam. E eu acho isso muito mais divertido!
Me dividi entre Roma e Milão, numa viagem com um grupo de jornalistas: conheci lugares jamais visitados e vivi experiências únicas
Por estar fora do país, perdi o show de Jorge Ben Jor, que eu estava aguardando ansiosamente; vou perder também a apresentação da
Filarmônica de Berlim, cujo ingresso em benefício da TUCCA comprei com muito orgulho
Também não estava presente na feira literária do Museu Judaico de São Paulo, com mesas superinteressantes
Passei dois dias em Roma, no esplendor do outono, hospedada no meu hotel preferido na cidade, o Eden, parte da Dorchester Collection
Fui à Villa Borghese, pela primeira vez com guia, e aprendi muito sobre Bernini e Caravaggio: que experiência transformadora
Almocei no Nino, na Via Borgognona, um dos meus restaurantes preferidos na cidade, com figos e presunto de Parma — que eu amo — no cardápio
Passeei com minha amiga Mylene Sanches, fui à Chez Dede, loja onde ela trabalha, conheci a dona e o dono que estavam lá, Daria Reina e Andrea Ferolla, um artista único: amo a loja e também conheci um apartamento que agora eles alugam para pequenas temporadas — tudo mega charmoso
Comi todos os dias frutas do bosque: morangos, framboesas, amoras, mirtilos
Tive uma experiência incrível com o sommelier do restaurante La Terrazza, do hotel Eden, em Roma: nunca havia sido transportada assim por meio das palavras e explicações sobre vinhos
Aprendi a fazer um Negroni maravilhoso com o mixologista sensação do Hotel Príncipe di Savoia, de Milão
Fui visitar a mostra Pradasphere, uma experiência única criada por Miuccia Prada: a entrada é pela confeitaria Marchesi e passa por vários caminhos secretos até sair pelo subsolo da loja feminina da Prada, debaixo da galeria Vittorio Emmanuelle II: uma aula de antropologia por meio da moda
Fui conhecer a loja La Double J na Via Sant'Andrea: sou fã da criadora, Jennifer Jane Martin, que é muito alternativa: estou torcendo para a marca chegar logo ao Iguatemi
Comi o melhor presunto de parma com melão no café da manhã do Hotel Príncipe di Savoia, que entra em reforma a partir do início do ano que vem para dois anos de transformação
Achei impressionante como o assunto Daniel Vorcaro e suas ramificações tomaram conta dos dias da minha viagem em grupo pela Itália
Conheci o segundo colocado na lista de melhores bares do mundo do The World's 50 Best Bars: o Moebius, em Milão — ficou claro para mim que ninguém ganha prêmio assim à toa — os drinks eram inusitados e muito especiais
Pensei muito nos meus músicos preferidos da Itália nestes dias: Lucio Dalla, Pino Daniele, Ornella Vanoni, Mina e Lucio Battisti, entre outros…
Que emoção rever Netinho cantando “Milla” no Coliseu de Lisboa, levantando o astral de uma enorme audiência. A morte dele, na semana que passou, foi um momento muito triste para a música baiana, para a música brasileira. Sua alegria, sua energia, seu jeito de bom moço: tudo isso vai continuar na nossa memória. Netinho, que falta você vai fazer…
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