A questão do gênero, a divisão de tarefas e a importância do bico calado: ah, quantas delícias!

Dias complicados esses últimos: tempo de pré-eleição, tempo de conscientização, de cuidado, de foco para escolher bem cada candidato que vai nos representar nos próximos anos. Entre um escândalo e outro, mantive quase minha rotina de entrevistas, de trabalho, de compromissos — uma dor de garganta chata me impediu de prestigiar algumas pessoas que eu considero muito. Coisas da vida. Teve também uma manhã muito gostosa quando compartilhei minhas experiências nessa nova caminhada profissional com o jornalista Fernando Pacheco, que mora em Londres e trabalha para a Monocle. Essa foi a segunda vez que ele me entrevistou, agora sobre novos desafios. O que ele mais queria saber era sobre justamente a nossa Caixa Postal, essa newsletter que eu faço com um prazer enorme a cada semana, com uma equipe enxuta e talentosa. É gostoso falar desse processo, é muito bom poder inspirar pessoas a ousarem novos caminhos, novas experiências. Falar da minha própria experiência profissional e da minha caminhada diretamente para o mundo me enche de satisfação, de orgulho, e confirma que eu estou no caminho certo. Nossa conversa, do Fernando e minha, vai ao ar na rádio Monocle, daqui de casa direto para o mundo. Que bom poder voar…


QUEM PAGA A CONTA?

A gente fala muito sobre a liberdade conquistada depois do divórcio. A casa nova, a vida reorganizada, a volta aos encontros, aquela sensação gostosa de poder decidir tudo sozinha. De dormir atravessada na cama… As redes sociais adoram essa história. O que aparece bem menos é a planilha que vem junto. E, pelo que conta uma reportagem na The Cut, ela pode ser bem indigesta.

Nos Estados Unidos, algumas mudanças nas leis de divórcio nasceram de uma ideia que, no papel, parece bastante razoável: homens e mulheres são iguais e devem conseguir se sustentar depois do fim de um casamento. Em estados como Nova York, a antiga "alimony", aquela pensão paga ao ex-cônjuge, deu lugar à "spousal maintenance", uma ajuda geralmente temporária, calculada por fórmulas e com limites. Só que casamento nunca foi exatamente uma sociedade com dois sócios fazendo investimentos idênticos.

Quando chegam os filhos, a conta costuma entortar. Muitas mulheres reduzem o ritmo profissional, recusam oportunidades ou deixam a carreira por alguns anos. E existe ainda um obstáculo que independe das escolhas delas: o próprio mercado de trabalho costuma ser mais resistente a contratar e promover mulheres com filhos. Para os homens, a paternidade pode ter o efeito contrário. Existe até nome para essa diferença: "motherhood penalty", a penalidade financeira associada à maternidade, e "fatherhood premium", o ganho profissional associado à paternidade. Que coisa, hein?

A série "All Her Fault", bastante comentada atualmente, toca justamente nesse ponto de um jeito bastante incômodo. As mães trabalham, cuidam dos filhos, administram a casa, organizam a rotina e ainda precisam provar que continuam comprometidas com a carreira. Para os pais, essa conta costuma ser bem diferente — o peso da família continua distribuído de forma desigual e, quando alguma coisa precisa ceder, quase sempre se espera que seja o trabalho da mulher.

O problema aparece quando, anos depois, o casamento termina e aquela pausa passa a ser tratada quase como se nunca tivesse existido. A mulher pode ter diploma, experiência e uma ótima carreira antes dos filhos. Mas quinze anos fora do mercado são quinze anos fora do mercado. Currículo também envelhece.

Segundo os estudos citados pela revista, depois do divórcio, a renda doméstica das mulheres cai quase duas vezes mais do que a dos homens. Nos chamados "gray divorces", aqueles depois dos 50 anos, o padrão de vida feminino pode cair 45%.

Outra camada me chamou atenção: a mediação. A ideia de resolver uma separação longe de uma disputa judicial parece civilizada, especialmente quando há filhos. Só que a reportagem mostra que esse ambiente supostamente amigável também pode pressionar mulheres a aceitar acordos piores para evitar briga, culpa ou desgaste familiar.

E aí chegamos a uma contradição muito contemporânea. Falamos de sexo, terapia, solidão, novos encontros. Postamos a reconstrução da vida. Dinheiro, porém, continua escondido. Parece bem mais fácil contar sobre a volta aos encontros do que admitir que foi preciso mudar de casa ou reduzir drasticamente o padrão de vida — coisas que as redes não mostram…

E talvez a parte mais incômoda seja justamente essa. Durante o casamento, ainda tratamos como natural que a mulher diminua o passo quando chegam os filhos, assuma uma parcela maior dos cuidados de casa e absorva o impacto disso na carreira. Quando o casamento acaba, porém, a conta parece partir do princípio de que os dois chegam à separação em condições equivalentes.

Não chegam. Um pode sair com anos de salário, promoções e experiência acumulados. A outra pode sair tentando descobrir quanto vale, no mercado de trabalho, um currículo que ficou parado enquanto a família seguia funcionando. O divórcio apenas coloca um preço muito concreto numa desigualdade que começou bem antes dele…


NEM TUDO É O QUE PARECE

Lembra das hacker houses que surgiram no começo do Facebook? Programadores amontoados em casas, pizza fria, beliche, computador aberto até de madrugada? Segundo uma reportagem do The New York Times, a nova geração dessas mesmas casas, embalada pela febre da inteligência artificial, trocou o improviso por mansões na região de San Francisco, onde um quarto pode custar 10 mil dólares por mês. A promessa também cresceu: reunir as cabeças mais brilhantes para acelerar o futuro da humanidade. Até aí, tudo muito Vale do Silício.

Uma delas é a AGI House, um palacete de 1.800 metros quadrados batizado em referência à inteligência artificial geral, a tal tecnologia que pretende chegar ao nível da mente humana. Por ali já passaram Sergey Brin, fundador do Google, para dar palestra, e Grimes, a cantora canadense conhecida por sua estética futurista, para fazer um show privado. Uma festa com o tema “Meia-Noite em Paris” recebeu convidados em carruagens puxadas por cavalos. Em outra noite, um carro foi parar voando pelos jardins. Acredite.

Existe todo um ecossistema em torno dessas casas. Sam Altman, da OpenAI, apoia redes globais voltadas a jovens talentos, e Eric Schmidt, ex-CEO do Google, também aparece entre os apoiadores de iniciativas desse tipo. A ideia é morar, trabalhar, trocar contatos, criar empresas, discutir o futuro, tudo junto no mesmo lugar. Só que essa convivência sem muita fronteira entre trabalho, festa, ambição e vida pessoal parece ter produzido uma experiência bem menos futurista do que o discurso.

Nessa AGI House, administrada pelo investidor Rocky Yu, a polícia registrou 37 ocorrências desde 2022, segundo o New York Times. Entre elas estão reclamações de barulho, checagens policiais de bem-estar em momentos de crise e relatos de assédio e violência sexual. Uma mulher relatou que chegou a pular o portão da propriedade durante a madrugada para fugir de uma situação envolvendo um morador. A empreendedora Yehong Zhu, fundadora da empresa Zet AI, também registrou uma denúncia de estupro contra um ex-integrante de outra dessas comunidades, a Genesis.

O que mais me intriga nessa história é a contradição. Estamos falando de uma turma obcecada em imaginar como a inteligência poderá superar seus limites, criar o futuro, resolver problemas gigantescos. E, dentro de casa, aparecem problemas humanos antiquíssimos: abuso de poder, falta de limite, violência, irresponsabilidade.

Talvez exista aí uma boa provocação sobre essa corrida tecnológica toda. De que adianta querer construir uma inteligência extraordinária se, no caminho, a gente perde justamente algumas das coisas mais básicas que deveriam nos distinguir? Ética. Respeito. Bom senso. A tecnologia pode avançar numa velocidade impressionante. A humanidade, pelo visto, continua precisando de bastante empenho.

TEA FOR TWO

Você sai para jantar com alguém na quinta-feira. Na sexta de manhã, três amigas já sabem a profissão, signo, leram os prints das mensagens e têm uma opinião bastante formada sobre o sujeito. Algumas horas depois, aquele encontro que era a dois ganhou uma pequena comissão julgadora. Engraçado. E assustador.

Andamos fazendo isso com uma naturalidade impressionante. Conhecemos alguém e imediatamente abrimos a história quase que para consulta pública. Print para cá, áudio para lá, debriefing no almoço de domingo. “O que você acha que ele quis dizer?” “Você responderia?” “Não achou estranho?” Quando percebemos, mal tivemos tempo de descobrir o que sentimos, porque já estamos ocupados administrando o que os outros sentiram por nós.

Por isso achei interessante essa ideia do "quiet dating", o tal “namoro silencioso”. Meio escondidinho…

A proposta é bem simples: esperar um pouco para contar para as amigas e até para a família. Não esconder a pessoa nem viver um romance clandestino. Apenas deixar que uma relação tenha algum tempo de intimidade antes de virar assunto da mesa inteira.

Quando contamos cada detalhe, vamos criando uma personagem para quem estamos apenas conhecendo. Depois de dois encontros, o grupo já decidiu que o outro é atencioso demais, distante demais, interessado, enrolado. E nós começamos a enxergar aquela pessoa por esse filtro. Pesquisas mostram, inclusive, que a opinião dos amigos pesa na satisfação que sentimos com um relacionamento. Aquele comentário aparentemente inocente, “não fui muito com a cara dele”, pode ficar ecoando mais do que deveria.

Claro que amigos são fundamentais. Às vezes enxergam justamente aquilo que a paixão, essa criatura pouco confiável, prefere ignorar. Mas existe uma diferença enorme entre recorrer a alguém quando alguma coisa incomoda e montar um comitê de crise para interpretar cada mensagem de WhatsApp.

Talvez a parte mais interessante do quiet dating seja recuperar uma coisa que anda meio fora de moda: confiar na própria percepção. Na própria sensibilidade. No próprio sexto sentido.

Gostei? Quero vê-lo de novo? Estou confortável? Parece quase radical fazer essas perguntas sem antes encomendar uma pesquisa de opinião…

A intimidade precisa de algum silêncio para nascer. Nem tudo precisa chegar ao grupo enquanto ainda está acontecendo. Há histórias que talvez mereçam existir um pouco antes de serem contadas. Gosto muito dessa ideia.

Num tempo em que todo mundo sabe de tudo quase imediatamente, guardar alguma coisa só para dois pode ser uma bela forma de cuidado. E, convenhamos, até de romance.

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VAMOS BRINCAR?

Basta olhar para algumas bolsas por aí para perceber um novo acessório dividindo espaço com chaveiros e lenços: uns penduricalhos, tipo o Labubu. Alguém aí lembra? Aquele bonequinho meio monstrinho, de orelhas pontudas, que virou objeto de desejo de gente grande. Acho curioso o que ele e outros penduricalhos do tipo revelam sobre este momento.

A gente cresceu, arrumou emprego, passou a pagar aluguel e boletos. E agora quer brinquedo de novo. Aliás, por que não? Claro que demos um nome mais adulto para isso: "collectibles". Fica mais digno dizer que você coleciona do que admitir que ficou feliz porque conseguiu um bonequinho raro.

Uma reflexão que li sobre esse mercado chama atenção justamente para essa volta do brincar. A Lego entendeu muito bem o movimento. Hoje faz flores para gente grande montar e colocar na sala, Porsches para a estante, arquitetura, arte, naves de Star Wars. Coisas que exigem horas de concentração e que, curiosamente, não precisam servir para absolutamente nada além de dar prazer. Até a loja americana "Toys R Us" está voltando às lojas físicas atrás de um consumidor que provavelmente achava ter se despedido dela décadas atrás.

Passamos tanto tempo tentando justificar nossas escolhas que talvez tenhamos esquecido o valor de gostar de uma coisa só porque sim. O mercado inteiro vive atrás da utilidade: o produto precisa resolver, facilitar, melhorar, economizar tempo. Já o brinquedo ocupa espaço, dá trabalho, pode custar caro e ainda faz você querer outro. Concorda que é uma delícia?

A coleção tem essa graça perigosa. O sétimo Labubu não substitui os seis anteriores. A nova caixa não resolve uma necessidade que apareceu em casa. Ela continua uma história. Tem o personagem raro, o novo drop, a collab, a vontade de encontrar, trocar, mostrar. Um objeto puxa o outro e, de repente, existe todo um pequeno universo particular crescendo na estante. Minha casa, por exemplo, tem alguns deles. Minha bolsa de todo dia pode até ser trocada, mas tem sempre como penduricalho uma bonequinha de uma coleção antiga da Miu Miu. Acho tudo isso de um charme único.

É justamente aí que mora o encanto. Adultos passam boa parte da vida sendo cobrados para fazer escolhas sensatas: trabalhar direito, administrar dinheiro, organizar a agenda, aproveitar o tempo, comprar o que precisa. Tudo muito razoável. Um pouco cansativo também.

Talvez por isso seja tão divertido ver um monstrinho pendurado numa bolsa sofisticada ou alguém passar horas montando três mil pecinhas em cima da mesa de casa, tipo aqueles quebra-cabeças de muitas mil peças. Existe ali uma pequena licença para o inútil. Para o gosto sem justificativa. Para aquele prazer meio infantil de querer, procurar, encontrar e mostrar para alguém. Brincar continua, sim, oferecendo uma resposta maravilhosa para nada. E, às vezes, isso basta.


EU, EU, EU

Você encontra alguém para um café e, uma hora e meia depois, percebe uma coisa meio espantosa: a pessoa não perguntou absolutamente nada sobre você. Você sabe da viagem, do filho, do problema no trabalho, da reforma, do divórcio, da terapia e provavelmente até do lava-louças. Ela, sobre você, quase nada. E você volta para casa com aquela sensação esquisita de ter participado de uma conversa sem, de fato, ter conversado. Um monólogo estrelado pelo outro.

Uma reportagem do The Guardian trata justamente dessas pessoas que parecem cada vez mais comuns: gente que monopoliza a conversa, interrompe, despeja intimidades ou faz perguntas que servem apenas de trampolim para voltar a falar de si. Existe até nome para isso. O sociólogo Charles Derber chamou de "conversational narcissism", ou narcisismo na conversa, essa tendência de puxar continuamente a atenção para nós mesmos.

Achei interessante porque talvez a tecnologia tenha deixado esse hábito ainda mais confortável. Nota de voz é praticamente um monólogo portátil. A gente grava três minutos, manda e segue a vida. Detalhe: não faço isso e não admiro quem faz.

Mensagens também permitem organizar o pensamento sem aquela pequena inconveniência chamada outro. Ao vivo, não. Alguém reage, muda de assunto, faz uma pergunta inesperada, fica em silêncio. Conversar exige improviso. E, principalmente, escuta.

E tem os tipos: o monologuista em série, capaz de sequestrar um jantar com detalhes que ninguém pediu e que não interessam a ninguém a não ser ele próprio. Tem o "trauma dumper", que despeja questões íntimas sem saber se o interlocutor quer ou consegue recebê-las. E adorei descobrir o "boomerasker": aquela pessoa que pergunta como foi o seu fim de semana apenas para esperar educadamente a sua resposta e então contar, finalmente, como foi o dela. Uma pergunta-bumerangue. Volta sempre para o dono.

Há ainda quem interrompa para oferecer soluções. Você diz que perdeu o emprego e, antes de conseguir explicar como está se sentindo, já recebeu indicação de curso, software de currículo e plano para reorganizar a carreira. Às vezes a gente quer ajuda. Às vezes, apenas ser escutado e conseguir terminar a frase.

Ficamos tão preocupados em ter alguma coisa interessante para dizer que esquecemos que uma boa conversa depende também da curiosidade. Daquela vontade verdadeira de descobrir o que o outro pensa. Parece uma bobagem, mas não é: uma das especialistas ouvidas pela reportagem lembra que estamos perdendo até aquela conversa despretensiosa, que não precisa chegar a conclusão nenhuma.

Conversar deveria ter alguma coisa de pingue-pongue. Você fala, eu escuto. Eu falo, você escuta. A bola atravessa a mesa. Quando ela fica parada de um lado por noventa minutos, podemos chamar de muita coisa. Conversa, já fica mais difícil.

Desejos de consumo

Ai, que delícia sentir a primavera chegando… Mesmo que as temperaturas andem um pouco esquisitas, celebrar a estação é a melhor parte do calendário. E foi justamente isso que me inspirou ao circular nos corredores do Iguatemi!

Na montagem acima, reprodução da imagem de Jonas Wood, "Japanese Garden", 2017

1 - Gostei demais dessa incursão da A.Niemeyer num modo mais relax, mais casual…

2 - A bolsa da Lenny, feita numa espécie de crochê de buriti natural com detalhes em couro, celebra não só a estação das flores como a própria natureza

3 - Que graça esses Adidas Samba da Sunika, com os cadarços descombinando: amo!

4 - O Rose 31 da Le Labo é um dos meus perfumes favoritos da marca: levemente marcante e inesquecível…

5 - Por que os brincos de Ara Vartanian de ouro branco e amarelo com diamantes? Oras, porque a gente merece!
Viva a primavera!


3 perguntas para

Fortuna Safdié é cantora, pesquisadora e uma das principais divulgadoras da música sefardita no Brasil. Ela veio de uma família tradicional do mercado financeiro que chegou ao Brasil vinda da Síria, com passagens pelo Líbano, e há mais de três décadas constrói uma trajetória marcada pelo encontro entre diferentes tradições: do repertório judaico e mediterrâneo à música brasileira, dos cantos espirituais aos trabalhos dedicados ao público infantil. Ao longo desse caminho, já aproximou vozes de diferentes religiões, dirigiu projetos voltados à música do mundo e fez da pesquisa sobre memória e ancestralidade uma parte central de sua obra. Por trás de repertórios tão diversos, existe um mesmo interesse: entender como a música pode nos colocar em estado de presença, despertar emoções e criar pontes entre pessoas, culturas e gerações.

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​1. Você transita entre universos muito diferentes: o que eles têm em comum para você?

O canto que resgata nossa humanidade é sagrado para mim, seja ele em um mosteiro, numa sinagoga ou para uma plateia de crianças. O lado lúdico ou espiritual do canto nos faz presentes e conectivos e, portanto, nos faz sentir o que fica parado ou paralisado dentro da gente. Por inúmeros motivos, quando a música, o canto e a voz chegam a nós, a gente chora, se alegra e se liberta das nossas próprias teias. Este movimento libertador não tem idade para acontecer; está presente no coração de um neném ouvindo uma canção de ninar ou de um ancião em qualquer canto do mundo.

​
​2. Existe algo no ato de cantar, especialmente repertórios espirituais, que funciona quase como uma prática de atenção plena, de meditação — o canto, afinal, consegue colocar você num estado de presença diferente?

O canto espiritual, destinado a religar nossa alma e presença física por meio de dizeres sagrados, melodias ancestrais ou contemporâneas, é algo precioso. Os judeus cabalistas costumam dizer que "a música é a caneta da alma" (Ana Be Koah). Eu me sinto assim mesmo. Através da voz cantada e da música, em geral, podemos descrever momentos da alma: pedimos proteção, acolhimento, nos damos ainda mais conta da nossa vulnerabilidade, da passagem do tempo e da impermanência da vida... E alcançamos também momentos de êxtase comunitário, estabelecendo correntes de alegria com quem entoa as músicas conosco. É uma simbiose e comunhão muito saudáveis e que faz a diferença a cada vez. Cantos tribais, mantras, orações em canto em geral trazem uma presença plena do ser...

É neste "momento-lugar" que a presença se faz ativa, o presente do sublime, o "aqui e agora" com consciência, trazendo uma harmonia e paz interior intensas.

​
​3. Seu trabalho aproximou cantos judaicos de monges beneditinos, música árabe de repertório brasileiro, hebraico de outras tradições religiosas: depois de tantos anos fazendo isso, ficou mais fácil acreditar nessas pontes?

Grande parte da minha vida se passou estabelecendo pontes, quebrando barreiras, por meio da música. A música faz brotar diálogos entre culturas, etnias e religiões diversas, e, quando a gente vivencia isso, cria-se um caldeirão que ferve de energia boa de comunhão e fraternidade.

Durante mais de duas décadas, eu vivenciei isso com o Festival Todos os Cantos, realizado pelo SESC, no qual fui diretora artística, e os grupos mais diversos se encontravam e, em um determinado momento, tocavam juntos. Era uma catarse com o público... quando as cirandas se encontram, de Recife a Israel, quando as danças e ritmos circulares nos aproximam "do outro"... ah, como é bom ser humano… Pessoalmente, sinto que está cada vez mais difícil estabelecer estas pontes, num mundo tão preconceituoso, desumano, e ainda vivendo num Brasil tão polarizado e desacreditado. Mas ainda acredito que a música salva.

Direto do meu Instagram

Essa Semana Eu…

Estou acompanhando de perto a performance de Alexandre Borges como Ulisses em “Quem Ama Cuida”: ele está bom demais

Fiquei encantada com uns pratos de vidro à venda nas lojas da Lemaire, marca que admiro muito

Assisti ao Tony Tornado cantando e dançando aos 96 anos, no Altas Horas

Descobri que a Loro Piana criou um guarda-chuva de cashmere que pode, sim, ser usado debaixo d’água: custa €1.400 e leva três camadas do tecido tratadas com tecnologia impermeabilizante, além de cabo de madeira

Achei puro charme os sapatos recém-lançados pela Wales Bonner​

Fui chamada por Marina Linhares para o lançamento de sua linha de aromas no Museu de Arte Moderna

Vi que a Hermès abriu sua primeira loja permanente no Brooklyn, em Williamsburg: tem dois andares e mistura tijolos aparentes, numa arquitetura que conversa com o passado industrial do bairro

Me deliciei com o melhor misto-quente deste país, que eu comi no balcão da Casa do Porco​

Fiz duas entrevistas para o meu canal do YouTube que me emocionaram muito: uma com Karen Worcman, criadora do Museu da Pessoa — uma iniciativa única no mundo — e outra com Marcello Dantas, curador e gênio

Ouvi falar pela primeira vez do Readme, um aplicativo de namoro feito para quem lê ou quer se relacionar com quem lê: leva a cultura literária para o dating e ainda usa conceitos da psicanálise lacaniana no cadastro inicial

Comi um bolo de limão siciliano e mirtilos feito por Vilma, aqui em casa: um sonho

Soube que a Geração Z está trazendo de volta, à sua maneira, os antigos encontros de Tupperware: a lógica migrou para a moda e amigos se reúnem em casa para vender e garimpar roupas de segunda mão, transformando o desapego em programa social

Vibrei demais com a nova coleção de Dries Van Noten — como ele trabalha bem com cores, texturas e tecidos

Fiquei encantada com a ideia da Sotheby’s para a Art Basel Paris: transformar um apartamento na Rue de Rivoli em sala de estar, restaurante e coleção particular, com cerca de US$ 150 milhões em obras de Picasso, Matisse, Andy Warhol, Bacon e Calder, todas à venda de forma privada

Entrei no túnel do tempo e lembrei meus tempos de criança com o bracelete que Julia Gastin lançou no restaurante Palmeiral, em Lisboa, e no mundo

Fiquei impressionada com o chic charme e o estilo único de Kate Moss no desfile de Tom Ford, na Semana de Moda de Paris

Adorei saber que Hailey Bieber vai abrir um café pop-up da Rhode em Paris para celebrar a estreia da marca na Europa, na Sephora — fica na charmosa rue Bonaparte, em Saint Germain

Preparei com todo cuidado e muita pesquisa minha colinha para votar

Descobri uma balada em Tóquio onde ninguém vai para dançar, e sim para ler: na Jucy Book Rave, as pessoas levam seus livros, sentam espalhadas e passam a noite ao som de DJs tocando música ambiente e eletrônica

Como grande admiradora de Mira Schendel, fiquei orgulhosa do reconhecimento internacional do trabalho dela, agora com uma galeria a representando em Londres

Ansiosa pelo início da série "War", na HBO, com os atores Dominic West, que amo, e Sienna Miller

Recebi dos profissionais que participam do Roda Viva, da TV Cultura, uma foto minha da época em que participei de uma bancada do programa — faz tempo!

Coloquei na agenda o lançamento, terça-feira, da poltrona Preguiça, de Vilanova Artigas, na Dpot​

Não pude comparecer ao encontro organizado por Kika Olsen para mostrar as joias da sua marca, a Olsen K — com direito a autógrafos de Verena Smit na livraria Espelho: sou admiradora das duas

Recebi em casa a visita da esposa de um rabino — um casal de amigos — que veio me ajudar a celebrar os dias de Sukkot, a festa da colheita

Fiquei com uma vontade imensa de sair correndo atrás das bolsas da nova coleção da Bottega Veneta​

video preview​

De arrepiar: é exatamente isso que define essa canção de Stevie Wonder que escolhi para celebrar os 50 anos de seu disco mais mítico, “Songs in the key of life”. Neste vídeo ele surge com a cantora India Arie, numa de suas canções que toca a minha alma: “Ngiculela-es una Historia”. Aproveite.

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