Menos é mesmo mais? Conversas estranhas são necessárias? E que tal ocupar mais as mãos? Aqui tem!

Uma sucessão de momentos envolvendo muita emoção: foi isso o que aconteceu essa semana na minha vida. Tenho descoberto, cada dia mais, o quanto gosto de fazer entrevistas, o quanto eu me envolvo com cada um dos convidados e o quanto isso me faz bem. Nesses dias eu fiz várias delas e duas, especialmente, foram muito profundas, com direito a revelações e lágrimas escorrendo pelo rosto… Como é bom a gente tocar fundo, como é bom ser tocado por alguém… Como é bom sentir, como é bom aprender com o outro, como é bom saber que a gente não sabe nada. Estou parecendo um tanto quanto evasiva, mas o fato é que eu fui invadida por uma onda muito boa nos últimos dias, levada por momentos ligados ao meu dia a dia, à minha profissão. Quando a gente pensa que já começou a entender um pouquinho das coisas, é aí que tudo muda. E essa, sem dúvida, é uma das maiores graças da vida. Está disposto a vir junto?


VIDA DE RICO

Durante muito tempo, a ficção se dedicou a transformar os bilionários em personagens quase caricaturais: homens moralmente frouxos, cercados de luxo, tédio e cinismo, como se muito dinheiro produzisse automaticamente uma vocação para a crueldade — aquela coisa bem “Succession”. Mas uma reportagem da New York Magazine propõe um desvio mais interessante: em vez de perguntar se a riqueza extrema corrompe, ela pergunta o que esse excesso faz com a experiência íntima de estar no mundo. E a resposta, pelo que se vê, parece menos glamourosa do que solitária.

Existe um ponto em que o conforto começa a sequestrar a vida comum. A casa aumenta, os vizinhos rareiam, o hotel funciona com uma eficiência tão impecável que já não deixa brecha para o acaso, e o jatinho particular, ao contrário do que a fantasia promete, não é exatamente um celeiro de encontros humanos. O dinheiro resolve quase tudo, menos aquilo que depende de fricção, espontaneidade e convivência real. Há uma tristeza inesperada nessa blindagem, porque o luxo, quando chega a certo patamar, não expande apenas as possibilidades; ele também esteriliza o improviso. E sem improviso, boa parte da graça evapora.

Nem os prazeres de consumo escapam. A velha euforia da compra, seja o carro dos sonhos ou um tênis caríssimo, dura pouco. A ciência chama isso de adaptação hedônica, mas basta traduzir para o português da vida: a gente se acostuma. Aquilo que parecia extraordinário vira paisagem. O carro deixa de ser epifania e volta a ser condução. Talvez seja justamente por isso que tanta gente muito rica acabe buscando excitação em cifras, negociações e investimentos de milhões, como se a única maneira de ainda sentir alguma coisa fosse elevar continuamente a escala do jogo.

O mais revelador, no entanto, está nas cenas pequenas. Dividir a conta de um restaurante, por exemplo, deixa de ser um gesto banal e vira uma coreografia delicada, atravessada por poder, constrangimento e cálculo. Se o milionário paga, corre o risco de parecer performático. Se não paga, soa mesquinho. O dinheiro, nesse caso, não entra apenas como recurso, mas como presença que desorganiza a naturalidade. E talvez seja essa a perversidade mais sutil da fortuna: ela contamina situações que deveriam ser leves com uma espécie de eletricidade social permanente.

O dinheiro funciona como amplificador; ele não inventa alguém do zero — apenas aumenta o volume do que já estava ali. Quem era feliz sem ter quase nada pode continuar feliz com muito. Quem era ansioso leva a ansiedade para um território sem limite, onde até a menor frustração pode ganhar proporções absurdas. Não por acaso, aparecem esses episódios de gente entrando em pânico porque alguma coisa banal quebrou em casa, como se a vida, depois de muito dinheiro, deixasse de tolerar qualquer ruído.

Claro que há quem se perca de vez. A riqueza cria bolhas de aprovação, fabrica cortesãos modernos e oferece meios engenhosos de escapar de obrigações muito concretas, como no cruel e sofisticado mecanismo do “buy, borrow, die”: comprar ativos, tomar empréstimos usando esse patrimônio como garantia e morrer antes que a fortuna seja efetivamente tributada. É uma engenharia gelada, dessas que fazem o privilégio parecer não apenas excessivo, mas quase metafísico. Ainda assim, o que mais impressiona não é nem a esperteza fiscal: é a fragilidade identitária. Há gente com dezenas de milhões se sentindo irrelevante, exigindo deferências de chefe de Estado no check-in do hotel, mendigando importância num cenário em que sempre existe alguém mais rico, mais blindado, mais tudo.

Talvez por isso seja tão eloquente a obsessão de muitos deles com “ninharias”: café de seis dólares, a sacola de cinco centavos, o leite que “ficou caro demais”. Os psicólogos ouvidos pela New York Magazine sugerem que essa sovinice miúda funciona como uma espécie de prova moral, um jeito de dizer a si mesmos que ainda existe ali alguma normalidade preservada.

Acho muito interessante que, no fim da linha, o sujeito que pode comprar quase tudo precise se agarrar justamente ao gesto mais pé no chão para acreditar que não foi completamente deformado pelo excesso. A grande ironia da riqueza talvez seja essa: quando se tem tudo, o verdadeiro luxo passa a ser a tentativa, cada vez mais difícil, de continuar parecendo alguém comum.


CUIDANDO DO JARDIM

Existe uma delicadeza muito particular em certos assuntos que a gente varre para debaixo do tapete como se o silêncio pudesse, por si só, adiar o inevitável. A morte é talvez o maior deles e por isso achei tão bonita a reportagem do The Washington Post sobre um grupo de mulheres no estado da Virgínia, entre 78 e 89 anos, que se reúne todos os meses para conversar justamente sobre… a morte. Com vinho, bolo, humor e uma franqueza rara, elas transformaram o fim da vida em assunto, e não em tragédia.

O que me tocou na história foi perceber como esse gesto aparentemente burocrático, quase administrativo, porém ousado, ganhou outra densidade quando virou conversa entre amigas. De repente, não se tratava apenas de papéis, mas de desejos. De escolha. Uma queria doar o corpo para a ciência e falava sobre isso com a naturalidade de quem já entendeu que mesmo o último capítulo pode ser escrito com alguma lucidez. Trata-se de um diálogo quase desconcertante, porque desmonta a solenidade excessiva com que tentamos embalar a morte, como se o medo precisasse sempre de voz grave.

Talvez a nossa dificuldade esteja justamente porque a gente imagina que tocar nesse assunto escurece a vida, quando, segundo a reportagem, acontece o contrário. Psicólogos explicam que se preparar para a morte ajuda a reduzir a angústia de quem parte e também a de quem fica — tudo isso eu já aprendi desde a pandemia com a doutora Ana Claudia Quintana Arantes, médica especialista em cuidados paliativos que escreveu vários livros sobre o assunto.

Nomear o fim parece devolver alguma ordem ao caos. E mais: obriga a olhar para trás e a perguntar, com honestidade, o que foi essa vida, o que ficou dela, o que ainda importa enquanto há tempo. Existe uma autonomia profunda em decidir como se deseja sair de cena.

No fundo, talvez viver melhor tenha menos a ver com a fantasia da eternidade e mais com a coragem de aceitar limites. A gente gasta uma energia imensa agindo como se houvesse sempre depois, mais tarde, outro momento, outra chance…

Essas mulheres entenderam isso com uma elegância, uma sabedoria admirável: Eem vez de transformar a finitude em sombra, fizeram dela um critério — e decidiram usar esse critério não para sofrer antes da hora, mas para aproveitar, com mais presença, as últimas voltas em torno do sol.

O DIVÃ POLÍTICO

Sabe aquela sensação pesada de ler o jornal de manhã e sentir que o mundo está desabando? Pois é: o cansaço bate, o sono some e a cabeça só foca no que não é necessário... A gente costuma achar que isso é só o estresse do dia a dia, mas li uma reportagem no The Guardian mostrando que o buraco é bem mais embaixo.

Os consultórios de terapia nos Estados Unidos estão lotados de gente sofrendo de algo que a ciência já batizou de "depressão política". Confesso que o termo mexeu demais comigo — da mesma forma que o caso Epstein, o caso Master, todas essas guerras, os casos de feminicídio e outras coisas tão terríveis também…

O nome é forte, mas talvez seja justamente isso o que o torne tão certeiro. Não se trata apenas de um sofrimento íntimo, isolado, sem contexto: trata-se de uma tristeza que nasce do encontro entre a subjetividade e a realidade. A pesquisadora Ann Cvetkovich, que é professora da Carleton University, no Canadá, ajuda a nomear esse mal-estar: ele aparece quando a gente percebe que o mundo está violento, injusto, desorganizado, e que os velhos mecanismos de mudança parecem emperrados. É o tipo de percepção que não fica só na cabeça: vai para o corpo, para o sono, para o humor, para a energia de enfrentar o dia.

Estudos associam esse estresse provocado pelas notícias a fadiga crônica, insônia, raiva e pensamentos sombrios, especialmente entre os mais jovens. Depois das eleições norte-americanas de 2024, plataformas de saúde mental registraram aumento de novos perfis e agendamentos. Algumas universidades, diante da saturação emocional dos alunos, chegaram a criar espaços de enfrentamento com livros de colorir e peças de Lego, numa tentativa de oferecer uma trégua psíquica em meio ao excesso. Há algo de muito revelador nisso tudo: o problema deixou de ser uma abstração social para se instalar, com toda a força, no cotidiano mais banal.

Mas talvez a parte mais interessante esteja menos no diagnóstico do que na recusa de um certo tipo de resposta. Durante muito tempo, a terapia foi vendida como um lugar de adaptação, quase um treinamento sofisticado para que o indivíduo conseguisse suportar melhor as exigências do mundo. Sofrer menos, reagir melhor, aceitar o que não pode ser mudado. Só que alguns terapeutas estão justamente deslocando esse eixo, dizendo que talvez o ponto não seja ajudar as pessoas a aceitarem que o mundo está em ruínas, mas sim ajudar a reconhecer que não há nada de saudável em se acomodar ao insuportável.

Esse raciocínio me parece especialmente valioso porque desmonta um vício antigo: o de individualizar sofrimentos que são, em larga medida, coletivos. Quando a angústia diante da realidade é tratada apenas como falha pessoal, algo se perde: talvez o contexto. Talvez até a dignidade da própria reação. Preocupar-se sozinho seria um passo; preocupar-se em grupo já começa a tomar a forma de ação.

A saída não aparece como fuga, negação ou anestesia. Ela aparece como vínculo. Como comunidade. Como invenção coletiva de linguagem para suportar, compreender e transformar o que está acontecendo. Há um gesto político poderoso em recusar a vergonha da exaustão: transformar o desalento em uma questão compartilhada — quase um pequeno ato de vulnerabilidade pública.

Gosto da ideia de que nem toda resposta precisa nascer grandiosa para ser verdadeira. Às vezes, o primeiro gesto transformador é não deixar a dor apodrecer em silêncio. É dar a ela circulação, linguagem, companhia.

O que essa reportagem do The Guardian oferece é uma inversão muito bonita. Talvez a tristeza provocada pelo estado das coisas não seja sinal de desajuste, mas de sensibilidade preservada. Talvez a raiva e a frustração não sejam sintomas a serem corrigidos imediatamente, mas energias que podem ser convertidas em engajamento. Há um certo alívio em pensar assim — não porque o mundo melhore de repente, mas porque a pessoa deixa de se sentir defeituosa por sofrer com ele.

Num tempo em que tanta coisa parece nos empurrar para o torpor, quase reconforta descobrir que a resposta à angústia política pode não estar em se fechar, se blindar, mas em se juntar mais. Como quem percebe, enfim, que nem toda dor foi feita para ser curada no privado: algumas pedem praça, conversa, encontro, coro

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MÃOS NA MASSA

Durante muito tempo, venderam para a gente a fantasia de que descanso de verdade precisava vir embalado em silêncio absoluto, lençol impecável e alguma vista instagramável. Mas talvez o cansaço contemporâneo peça outra coisa: não mais o repouso passivo, e sim um deslocamento mais fundo, quase um antídoto contra a vida excessivamente mediada por tela, agenda e performance. Foi isso que uma reportagem do The Wall Street Journal captou ao olhar para a chamada “slowcation”, essa ideia de viajar devagar para aprender um ofício manual, criativo, tátil. Menos turismo de checklist, mais presença. Menos correr para ver tudo e sim parar para fazer alguma coisa com as próprias mãos.

Há algo de muito revelador nesse desejo. Em vez de férias desenhadas para consumir paisagens, bons vinhos e comidas esquisitas, entram em cena experiências em que o centro não é o lugar, mas o gesto. Tem gente descrevendo o prazer de acordar cedo, sair ainda de pijama para colher dálias molhadas pelo orvalho no jardim de um castelo na Bélgica. É bonito pensar que, num tempo em que quase tudo foi transformado em velocidade, eficiência e resposta imediata, exista gente pagando caro não para acelerar, mas para aprender a montar um arranjo floral. E pagando feliz.

O mais interessante é que a tendência não parece estar ancorada apenas no charme do cenário, embora ele exista, claro. O que seduz é outra coisa: na Finlândia, viajantes vão a uma ilha particular aprender estamparia, entre sauna e sopa de peixe. E tem empresas que montam itinerários em que a experiência é literalmente feita à mão: cerâmica na Espanha, bordado em Portugal, cestaria em países africanos. Tudo isso tem uma beleza evidente, mas a beleza aqui não está só no resultado final: está na suspensão, no intervalo, no tipo de atenção que essas atividades exigem e que a vida cotidiana parece ter desaprendido a oferecer.

Talvez seja por isso que esse movimento diga tanto sobre o momento em que estamos vivendo. Há um esgotamento que não se resolve apenas dormindo mais ou desligando notificações por algumas horas: existe uma fadiga mais entranhada, que nasce de uma existência toda fragmentada, terceirizada, dispersa. A mão quase já não participa da vida mental. A cabeça corre, os olhos deslizam, o dedo sobe a tela, mas o corpo não pousa. Quando alguém borda, molda barro, imprime tecido, colhe flores ou tece, acontece uma pequena reorganização interna. O tempo deixa de ser inimigo. A produtividade perde o charme. E, por alguns instantes, a pessoa volta a habitar a própria atenção.

O luxo talvez tenha mudado de endereço. Não está exatamente no castelo, na ilha ou no retiro bem curado, embora tudo isso componha a fantasia. O verdadeiro luxo parece ser outro: sair por alguns dias da lógica da performance e voltar a sentir o mundo pelo tato. Trocar a exaustão de estar sempre reagindo por uma experiência em que se cria algo palpável, sem pressa, sem algoritmo, sem urgência. Num mundo obcecado por abstrações, sujar as mãos pode ser a forma mais sofisticada de descanso.


NOVOS MODELOS,
VELHOS PROBLEMAS

A não-monogamia costuma ser vendida como território de liberdade, desejo, novidade. E tudo isso pode até estar ali. Mas o que li na The Cut me interessou por um motivo menos óbvio e muito mais revelador: para algumas mães, abrir o casamento não aparece exatamente como fantasia, e sim como rota de fuga. Fuga da rotina, da sobrecarga, da administração invisível da casa, dessa função exaustiva de lembrar da lancheira, da febre, da roupa, da comida, do que falta e do que não pode falhar. O que essas mulheres parecem tentar negociar não é só uma vida amorosa mais excitante, mas a chance raríssima de deixar o posto de gerente de tudo por algumas horas.

Achei esse deslocamento muito eloquente e até engraçado. Porque nos relatos reunidos pela reportagem, o desejo não reaparece necessariamente por causa do sexo em si, mas pelo efeito colateral desses encontros: a recuperação de uma parte esquecida de si mesma.

Entre outros casos citados, teve um que mostrava que o que havia de sedutor no parceiro fora do casamento não parecia estar só no romance, mas no intervalo. Naquele tempo suspenso em que a mulher não precisava pensar no jantar, na limpeza, na próxima tarefa, no próximo detalhe. O desejo, ali, quase se confundia com descanso. Talvez, em muitos casos, o que se apresenta como reinvenção amorosa seja uma tentativa de escapar da exaustão, de querer, por algumas horas, não ser soterrada pela rotina.

Mas a vida real, como sempre, não demora a cobrar a fatura. É difícil sustentar esse arranjo quando entram em cena as gripes da creche, os imprevistos, a falta de tempo, os desconfortos mal resolvidos, os sentimentos embaralhados. Trata-se de uma equação bem difícil, às vezes bastante complicada.

Apesar do tema tenha a ver com casamento aberto, fiquei pensando em outra escassez, mais banal e mais profunda: a falta de tempo para existir fora das funções que nos capturam. Talvez o grande artigo de luxo da vida adulta não seja colecionar experiências amorosas, e sim conseguir, por algumas horas, largar o uniforme invisível da maternidade, da administração da casa, da prontidão sem fim, e voltar a ser apenas uma pessoa. Com desejo, com silêncio, com limitações, com uma tarde livre. Em certos casos, é aí que mora o verdadeiro respiro.

Desejos de consumo

Essa semana que passou foi o almoço de comemoração do Squad 2026 do Iguatemi. Foi no restaurante Rodeio, numa tarde deliciosa! E de carona nesse clima de moças e rapazes bonitos, criativos e muito bem vestidos, que eu fiz as minhas escolhas da semana pelos corredores do shopping. Viva o time dete ano.
E viva o charme!

Na montagem acima, imagem de Sophia Fuke

1 - O vestido Hazel, da All Most Vintage-Gallerist, é a cara
da estação

2 - Estes sapatos da Prada são da última coleção e garantem o toque de modernidade que a
ocasião sugere

3 - No pescoço, este colar de ouro e ágata vermelha e branca da Prasi: precisa de outra coisa?

4 - Sabe aquele retoque necessário no meio da tarde? O pó bronzeador Terry,
da
Dominique Maison de
Be
auté, dá aquele realce

5 - Ah, esta bolsa de camurça Saint Laurent
Sonho acordada com ela


Nesta semana, recebo Astrid Fontenelle para uma conversa sobre carreira, televisão e o que significa se posicionar em público hoje.

Falamos sobre sua trajetória desde os primeiros programas até a MTV, a construção de uma linguagem própria na TV e as transformações no modo de comunicar ao longo das últimas décadas.

Astrid também aborda temas mais delicados, como o custo de ter opinião, a violência contra a mulher, a exposição nas redes sociais e a dificuldade de manter escuta em um ambiente cada vez mais polarizado.

Ao longo da conversa, ela revisita momentos pessoais, fala sobre seus projetos atuais e reflete sobre o que ainda faz sentido continuar dizendo em um mundo saturado de vozes.

A conversa completa está no meu canal do YouTube.
https://www.youtube.com/qGO1un1AAko

3 perguntas para

Guilherme Gontijo Flores escreve e traduz como quem atravessa tempos. Professor de literatura, poeta e tradutor, ele construiu uma obra em que a palavra nunca está parada: ela vem do passado, passa pelo corpo do presente e segue adiante, ligeiramente transformada. Entre a poesia autoral, a tradução de clássicos e a reflexão crítica, seu trabalho insiste em um gesto raro hoje: o de desacelerar a linguagem para que ela volte a nos afetar.

É também aí que sua ideia de poesia ganha contorno: menos como ferramenta e mais como experiência. Em um mundo orientado pela velocidade e pela utilidade, o poema aparece como uma interrupção, um espaço que exige tempo, recusa o entendimento imediato e desorganiza antes de explicar. Entre os gregos antigos e o Brasil de hoje, Guilherme sustenta essa tensão como quem faz da linguagem uma travessia.


1. Você já afirmou que a poesia pode ser um ato de resistência: em um momento com tanta diversidade de estilos literários, ela ainda encontra espaço?

Como eu disse, a poesia pode ser um ato de resistência. Não necessariamente ela é; e para muitos ela nem deveria ser um ato de resistência. Como eu a entendo, a poesia é no mundo contemporâneo um dos últimos recantos que resistem à mercantilização generalizada. Com isso, se, por um lado, poesia é mau negócio, por outro, ela pode ser uma experiência violenta e profunda de alteração das nossas temporalidades, corporalidades e comunidades. Isso acontece basicamente quando a poesia se recusa a ser o conforto fácil que nos conta o que já sabemos. Quando um poema nos desequilibra, ou nos afeta de um modo que não conseguimos compreender, ele nos pede tempo (o que menos temos); e, se tempo nós dermos, será um gesto mínimo da mais profunda resistência. Será útil? Provavelmente não, se considerarmos utilidade em termos de pragmatismo monetário: um poema nunca vai dar respostas definitivas sobre nada, nem vai resolver os problemas de ninguém. Pode apenas, se der muito certo, abrir um tempo, como uma clareira na vida, em que um germe insuspeito poderia brotar. Com certeza, não será em vão.


2. Em seus ensaios, você costuma explorar raízes gregas — o que a filosofia e a poesia da Grécia antiga ainda têm a ensinar nos dias de hoje?

Muita gente acha que buscar a etimologia de uma palavra poderia nos levar ao seu uso mais "verdadeiro" ou "original"; eu já acho que, ao buscarmos a origem etimológica de uma palavra para pensá-la agora pode ser um caminho deliberado para o estranhamento, isto é, para nos mostrar como a palavra sempre nos é estranha e como ela vive no tempo. Ao jogar com a etimologia podemos, portanto, encontrar outros jeitos de pensar uma palavra que até então parecia óbvia ou transparente e assim ressignificá-la.

Eu diria que, no que restou dos gregos, nós temos um mundo inteiro, que pode sempre ser interrogado e re-interrogado a partir do ponto de vista do presente, para aí escutarmos as respostas de um passado, com todas as diferenças que existem. Isso quer dizer que o passado sempre vai responder coisas novas, porque a novidade está nas perguntas que nós fazemos. Então, as respostas de um passado não precisam ser soluções definitivas para a vida presente. Nesse sentido, eu acho que ainda podemos aprender muito com os sentidos da democracia ateniense (inclusive com seus fracassos), ou com as poéticas vocais da Grécia Arcaica. Só não devemos colocar o mundo clássico num pedestal intocável. É preciso aprender com eles também encarando tudo que hoje nos perturba terrivelmente: o patriarcalismo, a sociedade escravocrata, a violência da guerra sistêmica etc.


3. Quais autores você acha fundamentais para quem quer começar essa caminhada de conhecimento pela literatura e filosofia grega?

Eu diria que continuam sendo os mesmos: Safo, Homero, Sófocles, Platão, Aristóteles; além de nomes menos conhecidos hoje, mas não menos importantes, como Górgias, Arquíloco, Simônides, Corina. Cada obra do mundo antigo aponta para possibilidades singularíssimas, que não podem ser simplesmente reduzidas a uma ideia de "literatura clássica", como se fosse tudo igual. Na verdade, assim como nós no presente, eles também disputavam inúmeras questões, com grupos apostando em caminhos muito diferentes. A graça toda talvez esteja nisso: em procurar uma vitalidade nos povos que já deixaram de existir. Para isso, podemos também visitar os sumérios, os astecas, os maias, os antigos chineses, os hindus, várias tradições africanas. Não acredito que a tradição grega seja superior a qualquer uma das outras: apenas teve uma sobrevivência melhor nos séculos. Um bom exercício, aliás, é precisamente cruzar ideias gregas antigas com outras correntes de pensamento, para ver o que acontece: quais semelhanças e quais diferenças aparecem, que ideias e afetos novos podem surgir disso.

Direto do meu Instagram

Foi uma tarde de conversa muito boa, muitas risadas, mas, principalmente, de muita emoção: Sig Bergamin conversou comigo quinta-feira, na Casa Vivo, sobre viver bem nos dias de hoje e sobre o que é luxo agora. Muita gente bacana escutando com atenção e aplaudindo muito no final. Que tarde mais especial foi essa?!

Essa Semana Eu…

Conferi as datas e vi que estarei em Lisboa quando Anna Maria Maiolino mostrar suas obras no MAAT — sou muito admiradora dela


Já fiquei encantada com os novos sapatos da Miu Miu — aliás, isso tem acontecido muito


Achei muito necessária e bem-vinda a participação de Felca no Fantástico falando, entre outros assuntos, de fobia social


Vi um filme no streaming, no Prime Video, e só depois descobri que era de Woody Allen: “Golpe de Sorte” é muito bom — em francês se chama “Coup de Chance”


Recebi em casa o lindo Livro “Mata Adentro”, de Dominique Jardy, que será lançado na próxima terça-feira, na Livraria da Travessa, no Iguatemi

Fiquei triste ao descobrir que não conseguirei estar na plateia de Fabrício Carpinejar, com “A Cura pelo Afeto” no Teatro Bradesco: dia 2 de abril tenho jantar em família da Páscoa judaica


Soube que as credenciais para o primeiro festival SP2B já estão sendo vendidas: vou correr para garantir a minha (trata-se de uma versão do SXSW de Austin acontecendo pela primeira vez em São Paulo)


Conversei com Bruna Lombardi e descobri que o novo livro dela vai se chamar “Mulheres que Sentem os Espíritos” — estou louca pra ler


Fiquei com vontade de conhecer o MoN Takanawa, novo museu de Tóquio que promete uma experiência bem diferente: mistura música, animação, mídia digital e performances interativas — será que já é a hora de voltar ao Japão?


Descobri, feliz da vida e muito orgulhosa, que tem uma pequena participação minha no novo disco de Marina Lima: o feat inclui também as vozes de Mano Brown e Fernanda Montenegro — que tal as minhas companhias?


Notei que Kurt Cobain virou referência de estilo para esta geração: jeans rasgados, tênis gastos e camisetas com ar de quem não fez o menor esforço — aquela indiferença mega estudada


Fiquei assustada com a enorme fila no lançamento do livro “É Tempo de Morangos”, de Bruna Martiolli, professora de literatura que mora em Portugal: mais de 500 pessoas passaram naquela noite de terça-feira pela livraria Martins Fontes da Avenida Paulista


Recebi aqui em casa para entrevistas do meu canal do YouTube o DJ Zé Pedro e a escritora e dramaturga Maria Adelaide Amaral — muita emoção envolvida


Vi que The White Lotus abriu casting para moradores de Saint-Tropez e das redondezas participarem das filmagens da nova temporada: sem exigir experiência, a produção quer pessoas reais da região para aparecer nas gravações que acontecem por lá


Soube que a Tate Modern desenhou um 2027 de peso: vêm aí exposições de David Hockney, Edvard Munch, entre outros


Participei do almoço de lançamento da temporada de viagens de sonho de 2027 da Latitudes


Comecei a assistir à série “O Testamento”, sobre o caso da herdeira das Pernambucanas, Anita Harley, na Globoplay: que história mais fascinante

Ganhei de meu amigo Charles Cosac o livro “Jerusalém - A biografia”, de Simon Sebag Montefiore

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Que delícia ser embalado por este som, este clássico “Senza Fine”, aqui com Gino Paoli, cantor e compositor que morreu esta semana, e com Ornella Vanoni, outro gigante da música italiana. Que tempos deliciosos eram esses?

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